VI. Sem Swell
Antes: V. O Trem da Madrugada
Na sexta-feira de manhã, o atentado aos quiosques da praia era o principal assunto no Montanha Russa. Os proprietários das casas de veraneio tinham sido convocados para uma reunião de emergência no clube. Era um tempo em que não havia câmeras de vigilância, apenas vigilantes uniformizados que não ofereciam perigo, conforme a singela avaliação de Kitz:
– Não vai dar em nada, galera. Ninguém viu a gente.
– Porra, cara. Isso pode dar merda pro pai do Martin… – Preocupou-se Pedro
– Pai do Martiba? – Riu-se Filho: – Quando a gente pichou o muro da Dona Coelha, ele sabia que foi a gente, e nem ligou.
– A gente é o caralho. Vocês. E a situação era bem diferente. Primeiro que ele não tinha certeza. Segundo que ele sempre soube que a velha furava as nossas bolas quando caía na casa dela. E pro coroa futebol é sagrado.
– Pois é, né leque… Eu também não falei porra nenhuma pro meu pai, mas ele teve certeza de cara que eu tava envolvido. E aí eu me fudi. – Lamentou Kitz.
– Culpa da Rosera, burro pra caralho, que achou boa ideia escrever literalmente “cadê nossa bola” no muro. – Condenou Filho.
– Mas o desenho do coelho ficou maneiro. Diz aí. – Rebateu Roserite, galhofando.
– Tomanocu. Teu pai também teve que pagar a pintura, viado. – Completou Kitz.
– Pai do Martiba também sabia. Quando a gente saiu do condomínio de carro no dia seguinte ele deu uma risada quando viu o muro pichado, e mandou: “vocês são foda, hein?” – Lembrou Filho.
– Então. E vocês viados não se acusaram. A merda sobrou pra mim e pro Rosera. Pro Zoila nunca dá nada porque o pai dele é maluco.
– Que isso. O coroa é gente fina. Pena que não mora mais lá no condomínio. Chamava a gente direto pra fumar um na casa dele… – Suspirou Roserite, nostálgico.
– Falando nisso, cadê ele?
– Adivinha.
– Trancado no quarto com a Medeia. – Intuiu Pedro.
– A casa tá uma loucura. Tem nego espalhado em tudo quanto é lugar, chapadasso. Tirando o cara da árvore… – Disse Rosera.
– Hã?
– Acho que o cara cheirou muito. Desde que a gente chegou de manhã ele tá parado na frente de uma árvore, balançando o corpo de um lado pro outro. Acho que nem dormiu.
– Puta que pariu.
Foi quando viram de longe o Kadett GSI cinza do pai de Martin subindo a rampa do condomínio.
– Ué? Martin tá saindo pra onde? E quem tá com ele? – Indagou Kitz.
– Foi procurar o pai da menina. Mó maluco. – Respondeu Pedro.
– Aquela que ele conheceu ontem no clube?
– Essa. Parece que o pai dela mora numa cidadezinha perto daqui.
– Moleque é ligeiro. – Elogiou Filho, antes de retornar ao assunto principal: – Galera, sem flagrante not é crime. Se vierem de caô, é só negar até o final.
– Já falei, não var dar porra nenhuma pra gente. Vai contra a orientação dos vigias. – Vaticinou Kitz.
– Como assim, cara? – Questionou Pedro.
– Só tem playboy aqui, amigo. Tirando a gente, todo mundo é filho de desembargador, doutor, essas porras. O chefe de segurança deve mandar assim pra eles: “se os moleques forem pra cá, vocês vão pra lá”. De manhã tá cheio de camisinha e ponta de baseado na areia.
Foram interrompidos pela buzina do carro da Medéia. Ao volante, Zoila anunciou com empolgação:
– Aí, galera! Meu parceiro aqui disse que tem um pico com altas ondas numa praia do outro lado do pontal. Pertinho daqui… Bora!
Era o cara da árvore. No banco do carona.
Roserite e Kitz se entreolharam, preocupados, mas Filho nem quis saber:
– Uhuu! Vou só ali dentro pegar a minha prancha! Peraí!
– Bora, porra! Já peguei as pranchas de vocês! Entra aí! – Disse Zoila para os dois que estavam com ele na casa da Medéia.
Filho era o único do grupo que pegava onda de fibra. Amarrou a prancha no rack em cima do carro e se juntou a Kitz e Roserite, que já tinham entrado.
– Vai não, Pedrão? – Insistiu Zoila.
Quase sussurrando, Pedro perguntou aos amigos no banco de trás:
– Esse é o cara da árvore?
Diante do consentimento de Kitz e Roserite, respondeu calmamente:
– Vou não. Acordei meio cansado hoje.
O trajeto era de fato bem curto, alguns poucos quilômetros de uma estradinha asfaltada que serpenteava pela encosta florestal. Kitz tentou estabeceler algum contato com o novo amigo de Zoila, sem muito sucesso. O sujeito era bem estranho: magro, cabelos grisalhos, lataria bem amassada, mas com uma aparência geral contraditoriamente jovem. Roserite nem conseguia disfarçar a mistura de receio e fascínio que a figura exercia, e o encarava atentamente. Os amigos não conseguiram conter o riso quando ele finalmente abriu a boca:
– Pode estacionar aqui, brother.
Disse a frase com a boca mais mole do mundo. Todos ali tinham o mesmo sotaque arrastado, mas aquilo era sacanagem. O velho moleque só podia estar forçando muito.
– Fala isso de novo, brother! – Pediu Filho, entre risos.
O sujeito pareceu não gostar. Voltou ao modo silencioso, enquanto Zoila e Roserite já tiravam as pranchas do carro animadamente. Aliás, a primeira coisa que Rosera sempre fazia quando entrava na água era soltar um barro, de tão ansioso.
Do platô onde os carros ficavam estacionados, descia uma trilha entre as árvores na direção da praia. O lugar era realmente lindo, paradisíaco. Não havia casas, nem trailers, só mar, areia e sol. Mas absolutamente nenhuma onda. Flat. Nem uma mísera marola. Uma piscina ainda mais calma que a praia particular do Montanha Russa.
Zoila e Roserite foram os primeiros a chegar, passo apressado na trilha, prancha embaixo do braço, até cair o cu da bunda. Quanto o resto do grupo chegou, todos olharam muito putos para o velho moleque, que com a mesmíssima prosódia de antes soltou:
– É galera… Acho que o swell não entrou.
Filho queria enfiar a porrada no cara, mas não conseguiu. Em vez disso, pediu novamente, chorando de rir:
– Fala isso de novo, brother!

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