Pós-Produção de Guerrilha (Dia de Preto)

Pós-Produção de Guerrilha (Dia de Preto)

A etapa de pós-produção do filme Dia de Preto começou simultaneamente à fase de produção, em setembro de 2006. Com uma ilha de edição montada na casa do Marcos Felipe Delfino, todo o material captado durante os fins de semana era editado por ele e Daniel Mattos, enquanto eu me concentrava na pré-produção das próximas filmagens.

Assim, no fim do ano de 2007, o filme já tinha o seu primeiro corte, que totalizava cerca de 2 horas. Depois de longas sessões de edição em conjunto, chegamos a uma versão de 90 minutos, que serviria de base para as etapas seguintes, relacionadas ao tratamento de imagem e à sonorização do material. Alguns efeitos visuais também foram aplicados, com a ajuda de Ben Katz. O desenho de som, realizado por Marcos Felipe e Daniel Mattos, também levaria um bom tempo para ficar pronto, mas nenhuma tarefa nessa etapa foi mais trabalhosa do que a confecção da trilha musical do filme.

O trabalho não era simples, de fato. Todas as cenas do filme tinham suas “temp tracks” selecionadas cuidadosamente por nós diretores. As principais referências vinham de Ennio Morricone e Hans Zimmer, mas a trilha tinha espaço para pérolas como a abertura de um antigo desenho animado japonês (Groizer X, conhecido no Brasil como “Pirata do Espaço”), a Pantera Cor-de-Rosa de Henry Mancini, John Frusciante e The XX. Tudo isso para garantir às cenas os climas necessários, idealizados durante a etapa de desenvolvimento do projeto.

O primeiro profissional contratado para a tarefa era o mesmo que já tinha feito, de forma competente, a trilha musical do nosso curta-metragem “O Bolo e o Queijo”. Como se tratava de uma relação de amizade, nenhum contrato foi assinado, o que se revelaria um erro. Após o pagamento da metade do valor combinado, infelizmente o trabalho não ganhou corpo. Além dos sucessivos atrasos para a apresentação de algum material, na primeira vez em que fomos assistir a um trecho musical produzido para a cena de abertura, nos espantamos com o fato de que as referências não tinham sido seguidas. Aquele não era o tom que desejávamos para o filme. Mais de um ano já tinha se passado até ali. Um ano perdido.

Esse constrangimento inicial logo deu lugar a uma tentativa de “terceirização” do trabalho. Alegando problemas pessoais e falta de tempo, o músico contratado indicou outra pessoa para continuar a confecção da trilha, o que no momento parecia uma boa solução. E as primeiras audições do material produzido pelo novo profissional, de fato, eram promissoras. Seguindo as referências de forma criativa, parecia-nos que tínhamos encontrado o caminho certo. Mas a informalidade do acordo, mais uma vez, cobraria o seu preço. E um preço caro.

Resistindo a entregar as faixas em formato “aberto”, de forma que nós pudéssemos ajustá-las à sonorização do filme, o novo “contratado” logo começou a empilhar uma série de obstáculos para continuar o trabalho. Obstáculos que invariavelmente envolviam uma renegociação do valor inicial combinado. Naquele momento, pressentindo o perigo, já estávamos negociando com outros fornecedores. Através do contato de um dos atores do filme, chegamos à V12 Music, capitaneada pelos músicos João Viana, Nado Zicker e Denis Porto. De início, propusemos que a trilha fosse então dividida entre as duas equipes, pois já tínhamos gostado do material criado pelo profissional “terceirizado”. Mas logo fomos surpreendidos por uma notificação extrajudicial emitida pelo referido, proibindo-nos de usar as partes que já estavam prontas (e pagas) até aquele momento.

Se há males que vem para o bem, no entanto, este foi um deles. Escaldados pela frustração do acordo malsucedido, assumimos o prejuízo de perder todo o valor pago pela trilha sonora até então e estabelecemos com a V12 uma relação contratual profissional, em que a remuneração se daria a partir das entregas. O processo então fluiu de forma positiva, embora tenha sido um trabalho bastante minucioso, que levaria mais de um ano para se concluir. Seguindo as referências de modo magistral, além de contribuições originais para a trilha, o talento de João Viana, Nado Zicker e Denis Porto se revelou fundamental para que garantíssemos a qualidade da obra.

Não foi por acaso que a trilha musical foi o elemento mais vitorioso do filme nos festivais em que Dia de Preto foi exibido, ganhando o primeiro prêmio no Festival de Petrópolis de 2011 e no Sunset Film Festival de Los Angeles em 2012, além de outras indicações em festivais internacionais, como no Maverick Movie Awards de 2012, em Hollywood.

Com a trilha pronta, finalizamos o processo de mixagem e chegamos a um corte final do filme em meados de 2011. O último desafio da etapa de pós-produção estava relacionado ao formato de finalização. Por questões econômicas, logo descartamos a possibilidade de realizar uma cópia em 35mm, que naquela altura já começava a dar lugar nos circuitos de exibição para os formatos digitais. Adquirindo a licença de um software, Marcos Felipe produziu uma versão do filme no padrão DCP, que seria utilizada para a inscrição nos festivais que aceitavam o formato, assim como posteriormente seria usada nas exibições comerciais.

Da última versão do roteiro à cópia final, tínhamos percorrido um longo percurso de pouco mais de seis anos. Agora faltava exibir e distribuir a obra. O que nos exigiria ainda mais capacidades guerrilheiras, que serão devidamente relatadas em um próximo post.

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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