Queimando Café (Parte 5) – Como Sobreviver como Criador no Século XXI

Queimando Café (Parte 5) – Como Sobreviver como Criador no Século XXI
Wales Portmeirion Atlas holding the sphere of the heavens (not the world!) bronze classical statue - a weight on his shoulders

Sob o título “Queimando Café”, venho publicando uma série de textos sobre os dilemas criativos, econômicos e políticos da indústria criativa, mais especificamente no setor de conteúdo audiovisual. As partes 1, 2, 3 e 4 estão disponíveis aqui no Blog para você ler.

Acredito que não há sentido em diagnosticar um problema ou problematizar uma realidade se esse esforço não conduzir naturalmente a algum tipo de conclusão propositiva. Por mais frágil que venha a se revelar a proposição, creio que o autor da análise contrai com ela uma dívida. É justo que este deva se arriscar e especular sobre possíveis formas de endereçar os dilemas a que expôs o leitor. Por essa razão, a partir de agora, procurarei expressar o que, acredito, podem ser alternativas de ação, individual ou coletiva, em relação às circunstâncias que descrevi até aqui.

Como criador de conteúdo e, ainda mais, como formador de criadores de conteúdo (embora acredite que os criadores são formados pelo seu próprio trabalho e não por seus professores) me sinto no dever de primeiro propor uma forma individual para o criador artístico lidar com esse cenário e só depois propor soluções socialmente organizadas. Resolver problemas coletivos, reformar estruturas de mercado ou da economia não é, ao menos na minha opinião, papel do criador artístico, embora seu trabalho possa produzir esse efeito. Lançar-se deliberadamente a esse tipo de empreitada, encarnando o papel de engenheiro social tende, pelo contrário, a atrapalhar sua atividade principal, que é o próprio Effort artístico. Digo isso por experiência própria. Atuar profissionalmente na gestão, organização ou regulação da atividade criativa ocupa sua mente e seu tempo com questões que, embora possam afetar diretamente a vida do artista e do público, podem até mesmo dissuadir alguém de lançar-se ao fazer artístico. Quem pensa muito faz pouco e, de certa forma, essa série de textos tem a função de permitir que eu mesmo me desprenda dessas angústias para abrir espaço na mente à minha própria atividade de criação ou, se não funcionar, que ao menos tenha transformado as angústias em produto.

Por essa razão, creio que cabe ao criativo simplesmente compreender o estado do jogo em que está atuando. O objetivo desse entendimento é liberar-se de falsas expectativas, demover-nos da busca por culpados (especialmente de culpar a nós mesmos) e dotar-nos de uma perspectiva mais ampla do território de atuação. O artista de hoje, nas mais diversas expressões, deve ter plena consciência das probabilidades extremamente limitadas de obter visibilidade significativa para seu trabalho, especialmente se a medida dessa significância for a independência financeira. O criador não deve condicionar sua atividade à obtenção de validação ou recursos externos, sob pena de abandoná-la ou de nem ao menos começar. Gatekeepers, sejam estes pessoas ou algoritmos, decidem o que acontece com o produto uma vez exposto a eles, mas não arbitram se o produto será feito ou não. Isso significaria a inversão de uma dinâmica imemorial. O Território do artista é sua arte e não a dinâmica social.

Alguns ofícios criativos dependem de recursos volumosos para que possam ser realizados. Isso pode ser visto como obstáculo, já que é essencial ao criativo a produção constante e profícua. É através do exercício contínuo da arte que o criador atinge a excelência e atualiza sua vocação. Nada impede que um escritor escreva, mas quando se trata de conteúdo audiovisual, essa proposição se complica. Ainda assim, de forma alguma essa complicação impede a atividade. Graças à tecnologia que cerca hoje a sétima arte, o artista audiovisual não precisa muito mais que um celular e acesso à internet para exercitar sua expressão. A escassez de recursos poderá ser um limitador do que pode ser concretizado mas, no fim das contas, as limitações e obstáculos são o combustível que os artistas em qualquer ramo usam para sua criatividade. A escassez desses recursos e também de recursos sociais podem ainda limitar o alcance da obra mas, como dito, condicionar o exercício do trabalho em si à expectativa de repercussão deste é o veneno mais eficaz para exterminar criativos. Ao criador individual não importa se o mundo é justo com ele ou com os artistas em geral. Sua resposta é fazer arte.

Pode-se acusar as ideias acima de promover algum tipo de solipsismo. Afinal, toda obra de arte e toda produção cultural só tem sentido quando compartilhada. O artista precisa do público, não se pode negar isso, e é exatamente esse o ponto em que desemboca toda a discussão que nos trouxe aqui. Ainda do ponto de vista do criador como indivíduo, uma vez emancipado da obsessão pela associação entre grandes massas impessoais de público e a geração de receita agregada, o artista pode dedicar-se à construção de sua comunidade. A grande vantagem de uma comunidade (e a internet demonstra isso) é que a distinção (especialmente a distinção hierárquica) entre público e gatekeepers se dilui. 

O núcleo a partir do qual a produção de um criador se expande é formado inicialmente por seus pares, que são simultaneamente incentivadores, fontes de feedback, consumidores e fãs. Essa dinâmica remonta à origem da cultura e da arte, no seio de pequenas comunidades, em um ambiente de pessoalidade. Na origem da atividade artística se faz presente, sempre, essa dinâmica de compartilhamento de experiências, de mimese e repetição, que dá origem aos estilos, gêneros e expressões comuns que caracterízam aquilo que chamamos cultura. Uma simples visita a uma comunidade de artesanato local mostrará esse processo coletivo de prática e iteração comunal. Essa estrutura, por abstrata que seja, está arraigada no nosso inconsciente coletivo e se repete de forma subjascente à formação, posterior, das grandes estruturas de mercado ou dos sistemas de intervenção do Estado no campo da cultura ou das comunicações. A ivestigação da biografia de artistas, mais ou menos notáveis, costuma revelar a comunidade criativa em que este deu seus primeiros passos. Seu sucesso individual, absoluto ou relativo, acaba sendo determinado muito mais pelo sucesso e afluência dessa comunidade (as vezes identificada como um “movimento”) do que por características puramente individuais ou atinentes às estruturas impessoais de mercados mais eficientes ou Estados mais democráticos (por desejáveis que estes sejam). Isso é verdade para a Bossa Nova e seus artistas (de João Gilberto a Nara Leão); para os tropicalistas (de Caetano Veloso a Rogério Duprat); ou para os artistas que viveram os famosos Les années folles na Paris da década de 20. Comunidades como essas criaram as condições para o florecimento de gênios ao mesmo tempo em que nutriram e sustentaram dezenas de outros artistas menos proeminentes. Uns não existiriam sem os outros, da mesma forma que Manoel Galdino de Freitas, o Mestre Galdino, não existiria sem a resiliência da comunidade artesã do sertão nordestino ao mesmo tempo em que essa comunidade em muito se beneficiou da fama de Galdino.

Vinicius de Moraes, Tom Jobim e João Gilberto (ao fundo integrantes do grupo Os Cariocas)

Um criador-empreendedor contemporâneo pode até atingir o topo da pirâmide em sua modalidade de expressão com alguma sorte e muito trabalho, mas garanto que o percurso até ali iniciou-se nesse tipo de pequeno núcleo originário e daí se expandiu organicamente até aquele o ponto raro e incerto de multiplicação exponencial que se tornou a obsessão da indústria criativa. Que seja uma obsessão para a indústria é natural e esperado pelas razões já expostas, mas para os membros criativos na base do sistema, a rede de trocas locais é muito mais importante que o canto da sereia das multiplicações extra-territoriais entoado pela comunicação de massa. 

As redes de comunicação da internet devem portanto ser encaradas pelo criativo como instrumentos facilitadores da formação de comunidades livres de contingências geográficas e temporais mas, nem por isso, abstraídos da importância crucial da troca pessoal e próxima que forma laços entre individuos capazes de se reconhecer e diferenciar. Quando utilizada como mais um instrumento de alavancagem de números impessoais de audiência, expressos em metas quantitativas de seguidores cuja identidade singular é desprezada, a mídia interativa logo haverá de trair o criador, impondo o mesmo nível de dificuldade ao seu avanço que este encontra nas modalidades mais tradicionais de inserção mercadológica.

Vejo muitos artistas comentendo esse erro fundamental de buscar atalhos para as primeiras divisões da indústria do entretenimento, sem antes construir sua própria identidade como criadores, acumulando conhecimento, experiência e relações horizontais em seu meio. Esses artistas e empreendedores só têm como referência, inspiração e matéria prima o conteúdo que resulta de um arranjo cuja mecânica interna lhe é inacessível.  Com isso, caem num atoleiro de baixa auto-estima (muitas vezes expressa paradoxalmente como arrogância) e tornam-se presa fácil para toda sorte charlatões que lhe prometem abrir as portas do mercado de entretenimento, ou outro tipo de manipuladores que insuflam a politização (no sentido da disputa sectária, não da Política verdadeira) da atividade, convertendo-os em artistas do vitimismo, os colegas de profissão em inimigos e o Estado em um ente devedor de uma justiça distribuitiva inexequível.

Mas o fato é que os produtos do mercado de conteúdo agregado dificilmente servem de referência ou inspiração para a criação artística e cultural naquele nível mais essencial e fundamental de construção de um verdadeiro profissional. Sem essa base formativa, o criador recai na tentativa de simplesmente emular a forma dos produtos de maior visibilidade, talvez por consumi-los em demasia ou por acreditar que padrões formais são a resposta para o problema dos resultados incertos. Talvez seja, parcialmente, para a indústria, mas certamente não é para o criador.

Por isso, minha proposta para os criadores é que façam seu trabalho em pequena escala, com os recursos disponíveis, continuamente. Formem uma comunidade com outros criadores e pessoas próximas. Exponham essa comunidade ao seu trabalho e coletem feedback. Busquem o grande mercado quando houver oportunidade. Entendam as necessidades de quem está operando no mercado e precisa entregar resultados (os empregos de milhares de pessoas dependendem disso. Não transformem o mercado num cubo de rubik, que precisa ser desvendado de qualquer jeito, o mais rápido possível. O sucesso de mercado é uma possibilidade, ainda que remota, mas não pode ser um objetivo em si mesmo, muito menos uma medida do seu valor como criador. Cresça organicamente. Ajude seus colegas. Trabalhe todos os dias.

Para criativos angustiados que queiram um mergulho mais profundo nesse aspecto do tema, não há livro contemporâneo melhor que “The War of Art”, de Steven Pressfield. Em minha opinião, é leitura obrigatória, especialmente para escritores e roteiristas, mas vale para qualquer artista.

Com esta parte 5, penso ter cumprido meu dever primário: reservar aos meus irmãos em armas uma perspectiva, própria de criadores, para um problema que talvez não tenha solução. A arte é um karma tanto quanto é uma benção, mas há algo que ela certamente não é, para o artista: um problema de engenharia social. 

Dito isso claramente, me permito voltar à perspectiva da engenharia social e econômica e imaginar de que forma organizações públicas ou privadas podem contribuir para a construção de um ambiente mais integrado e estimulante para a indústria criativa; um ambiente que traga o público e os criadores de volta a uma relação de culto e cultivo com o produto cultural. Isso é o que farei na sexta e ultima parte dessa série. Até breve.

Continua em Queimando Café (Parte 6) Final – Qual é o Futuro da Política de Cultura?

Daniel Mattos

Daniel Mattos

Nasceu em Petrópolis, em julho de 1975 e recebeu o nome de Daniel Vidal Mattos. Desde então está em busca de respostas sobre o que é ser Daniel Vidal Mattos, nascido em Petrópolis em julho de 1975. Não se parece com a foto aqui publicada.

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