29. A Vingança de João
Liderados por João Ramalho, que agora vivia e se vestia como um deles, os índios da aldeia inimiga aproveitaram a escuridão da madrugada para se movimentar pela mata, imitando o som de animais para planejar cada avanço.
Os invasores atacaram de surpresa, junto com os primeiros raios de sol do dia. Foi um verdadeiro massacre. Doentes, os índios da Guanabara não tinham forças para resistir à brutalidade dos inimigos. E João era um dos mais agressivos na carnificina, olhando para toda a parte, ainda à procura do oráculo.
– Olhõõõeees!!! – Gritou Russo, desesperado.
O capitão Cabeças abriu os olhos de repente, acordado pelo alerta familiar. Como de costume, estava em sua esteira, cercado pelas cinco nativas que dormiam com ele. No instante seguinte, já estava de pé no meio da oca, reunido com os demais piratas:
– Deu alguma merda lá fora, cambada!
Somente Fininho continuava dormindo pesado numa rede, roncando. Asno deu-lhe um tapa na cara para que ele acordasse.
– China! Mande um japa ver o que está acontecendo!
O mestre artilheiro gritou para um de seus comandados, apontando para a confusão lá fora:
– Bai la! Bai la!
O japa correu até a entrada da oca, pôs a cabeça pra fora e começou a relatar a batalha que estava acontecendo:
– Ji lau tu mao nu ku! Ji lau tu mao nu ku!
E tomou. Uma flechada certeira atingiu o crânio do pobre artilheiro, que caiu morto na frente de geral. Cabeças engoliu em seco:
– Lascou!
Os piratas começaram a se desesperar, sem saber o que fazer. Asno e Fininho corriam de um lado para o outro, chorando, desorientados. Mas o jovem indígena que vivia seguindo Cabeças indicou ao capitão uma pequena passagem de saída no fundo da oca, camuflada por adereços.
Rapidamente, os piratas aproveitaram aquela rota de fuga providencial para fugir dali pelo mato. Seguindo o índio, os piratas atravessaram a trilha que levava até a praia. Lá, Cabeças viu que o bote do Esperança não estava mais lá. Quando olhou para o horizonte, viu Ramona se afastando com a pequena embarcação.
– Aquela filha de uma meretriz mal cheirosa!
Na outra ponta da praia, ainda longe, os piratas perceberam que um grande grupo de índios inimigos corria para atacá-los, já com os arcos empunhados. Todos se borraram de medo. Asno e Fininho foram os primeiros a correr para o mar, no desespero, se jogando na água para nadar até o Esperança.
Considerando a distância até a caravela, a chance de escapar naquela situação era baixíssima, mas talvez fosse a única. Um a um, os piratas foram se lançando ao mar: Marrique, Manabu, Russo. Logo em seguida, China e os japas que restaram. Até Piri, que jamais corria, quando não viu outra saída, olhou para o Capitão, que pela primeira vez na vida parecia não ter qualquer solução para aquela situação, e também decidiu nadar.
Agora, o único que ainda estava ao lado de Cabeças era justamente o jovem índio que o tinha como exemplo. Apesar da enorme pressão da situação, pois as primeiras flechas já começavam a cair perto dali, ele continuava olhando para o capitão com confiança. Inspirado pelo novo pupilo, Cabeças se lembrou do oráculo no bolso da sua casaca e pegou a peça de madeira. Com a fé renovada, como nunca antes tivera na vida, o capitão fechou os olhos e implorou aos céus:
– Óh, poderoso oráculo! Cabeça de madeira que é boca, língua, garganta e perdigoto dos deuses! Tenha misericórdia dessas pobres carcaças e nos livre de virar churrasco hoje à noite!
Como sempre, o capitão não conseguiu ter visão alguma. Abrindo um dos olhos, viu quando uma flecha caiu bem perto de seus pés, de forma ameaçadora.
Foi quando Cabeças percebeu que os deuses, ou seu novo amigo índio, tinham ouvido seus apelos. O nativo estava arrastando à praia uma canoa escondida no mato. Para salvação do capitão e de todos ali, o jovem indígena os embarcou rapidamente e começou a remar para resgatar os demais piratss, enquanto mais setas eram lançadas.
– Tu és a pena que escreve certo em linhas tortas! Meu tesouro! – Disse o capitão, emocionado, admirando a peça de madeira.
Da canoa, viram os invasores tentando as últimas flechadas lançadas em direção ao bote, que já se afastava em direção ao Esperança, para alívio da marujada.
Mas, na aldeia, João tinha acabado de matar o cacique em um combate, para horror de Nana, que fugiu horrorizada quando testemunhou a cena. O pirata renegado continuva procurando o oráculo por toda a parte. Quando achou a oca onde o capitão estava instalado, revirou tudo, mas não viu nada, nem ninguém. Mas viu a pequena passagem secreta ao fundo.
Furioso, João seguiu o rastro dos piratas e correu pela trilha que levava à praia. Quando chegou, com ódio nos olhos, percebeu que o Esperança já estava zarpando.
