Queimando Café (Parte 4) – Complexidade x Escalabilidade: A Próxima Convergência

Queimando Café (Parte 4) – Complexidade x Escalabilidade: A Próxima Convergência
A próxima convergência fará das redes sociais de hoje coisa do passado.

Sob o título deliberadamente provocador de “Queimando Café”, venho publicando uma série de textos sobre os dilemas criativos, econômicos e políticos da indústria criativa, mais especificamente no setor de conteúdo audiovisual. As partes 1, 2 e 3 estão disponíveis aqui no Blog para você ler.

Me parece que identificamos, ao longo dessa reflexão, o choque entre dois universos aparentemente contrários mas profundamente interdependentes. 

O primeiro é o universo da escalabilidade industrial, que permitiu a construção de uma civilização global (talvez futuramente multiplanetária) de uma riqueza material antes inimaginável. Esse mundo nos deu meios para produzir e distribuir uma quantidade colossal de conteúdo artístico e cultural, tornando essa a principal forma de entretenimento e lazer para bilhões de pessoas que, por sua vez, têm tempo livre cada vez maior para consumir ainda mais e produzir ainda mais arte e cultura. No entanto, como efeito colateral da própria escala sobre-humana desse empilhamento de operações escaláveis, perdeu-se a capilaridade que permitiria estender essa riqueza ao contingente de criadores que serve de manancial e reserva recursiva à indústria. Da mesma forma, perdeu-se a capacidade das pessoas decidirem com qual conteúdo elas realmente se importam. O modelo decisório que resulta nessa eliminação impessoal da capilaridade é o chamado princípio de Pareto que, resumidamente, indica que 20% das causas produzem 80% dos efeitos. Essencial para os modelos de eficiência, o princípio paretiano incentiva a concentração de recursos e esforços em um número limitado de objetos ou fenômenos e, consequentemente, permite negligenciar os 80% restantes do território afetado.

O segundo é o universo da complexidade. É o habitat da criação artística e da fruição cultural, em que o padrão local se impõe sobre o supralocal, em que a dinâmica fragmentada não se submete facilmente à regressão estatística e no qual imperam processos de iteração e interação, produzindo soluções específicas para problemas particulares com grande frequência, dificultando os processos de agregação, simplificação e ganhos de eficiência.

O universo da complexidade é, portanto, um ambiente em que há grande dificuldade em gerar ganhos de escala. Isso hoje é um problema. Estamos ainda nos estágios iniciais da revolução data-driven. Escalabilidade, que sempre foi um dos valores centrais da economia industrial, tornou-se a pedra filosofal que produz um unicórnio tecnológico por semana e provoca a disrupção de indústrias e mercados inteiros a cada ano. Por todo lado, empreendedores inteligentes procuram alguma fronteira inédita de escalabilidade, capaz de produzir grandes multiplicações de valor a partir de poucos recursos. Hoje, a análise de um negócio, geralmente de “information as service”, já começa com essa pergunta: é escalável? E há pouco interesse em alocar capital quando a resposta é negativa.

Como se pode dar escalabilidade a ambientes produtivos fragmentados e complexos? Essa pergunta implica dizer: como produzir ganhos de escala sem usar o princípio de Pareto como ferramenta simplificadora?

Hoje, alguns exemplos de agroflorestas orgânicas ou permaculturas comprovam que esse modelo de produção agrícola é capaz de gerar uma grande diversidade e quantidade de produto de alta qualidade com baixo custo por hectare. O problema é que os exemplos são, em geral, propriedades pequenas ou médias, maduras, que atingiram esse desempenho depois de anos de aperfeiçoamento local e atenção concentrada. Em resumo: embora não se possa mais dizer, como antes, que esse não é um modelo eficiente, segue sendo entendido como um modelo não-escalável (porque não paretiano) e, portanto, fora do universo de interesse da indústria e do capital.

Outro exemplo de negócio: a reforma e viabilização comercial de imóveis pequenos ou históricos sofre do mesmo problema. A operação é fragmentada em muitos casos com particularidades que não parecem dar espaço aos ganhos de eficiência exigidos pela lógica escalável. Mas uma startup brasileira (o mais recente unicórnio do país), a Loft, desafiou essa ideia e montou um negócio que tenta levar para o mercado de apartamentos usados as vantagens obtidas por grandes empreendimentos escaláveis. O método pelo qual faz isso é o mesmo das demais empresas da revolução data-driven: o uso de novas tecnologias de processamento de dados para tornar navegável o ambiente de complexidade.

A criação e produção de conteúdo audiovisual é mais um desses exemplos. Um ecossistema altamente complexo e fragmentado em que, desde a fase de concepção até a produção, impõe-se uma lógica do tipo “cada caso é um caso”. Não é por coincidência que esse seja um ambiente que não se adapta bem ao modelo da legislação de prestação de contas. Atividades dessa natureza impõem limites estreitos à implementação de soluções padronizadas, mesmo que modulares, e exigem atenção dedicada de agentes humanos para interpretar e contextualizar os muitos desafios que se apresentam durante seu desdobramento. Por essa razão, essas são atividades vistas como artesanais, em que os custos unitários mais altos estimulam, no sentido oposto de seus concorrentes escaláveis, uma busca por qualidade superior e um consumidor de alta exigência e poder aquisitivo, conquistado pelo relacionamento capilarizado e pessoal. Essa é a forma pela qual essas atividades conseguem se apropriar do princípio de Pareto.

Temos testemunhado o poder que a moderna tecnologia de dados tem para endereçar precisamente os problemas típicos do universo da complexidade. A revolução informacional do século XXI é precisamente uma resposta ao dilema que acabei de apresentar. Nas últimas duas décadas, grandes volumes de valor têm sido criados a partir da inclusão, no universo da escalabilidade, de grandes territórios antes vistos como complexos demais ou fragmentados demais para que fossem endereçados por uma grande operação empresarial.

No entanto, como já disse, estamos nos estágios iniciais dessa revolução tecnológica e há claros limites para a profundidade e detalhamento com que esses sistemas são capazes de gerir tais territórios de complexidade. 

Por mais otimistas que sejamos (e me considero um otimista nesse caso), devemos admitir que a habilidade dos sistemas de dados atuais para lidar com a complexidade já é horizontalmente ilimitada, mas ainda é verticalmente limitada. Explico: esses sistemas são capazes de coletar conjuntos de dados incrivelmente detalhados de uma miríade de pontos de controle (cada celular é um desse pontos) e é também capaz de devolver um set de configuração específico para esse mesmo ponto de dados. é portanto horizontalmente ilimitado de uma forma que nenhum sistema de informação foi até os fins do século XX. No entanto, no momento de tratar o conjunto de dados coletados, o sistema deve formular agregações, regressões e reduções segundo aquele conjunto limitado de métricas que expressam os objetivos de uma instituição organizada conforme uma pirâmide hierárquica e que, portanto, impõe de cima para baixo uma lógica notadamente paretiana para possibilitar que um número pequeno de gestores tome decisões “macro”. Isso gera efeitos colaterais que conhecemos bem, pois constituem os grandes pontos de tensão e críticas à lógica desses serviços.

As “bolhas de rede” criam caricaturas de nós mesmos e agrupam pessoas em incontáveis subconjuntos de atributos em comum, tratando tais conjuntos como segmentos ou comunidades. O problema é que estas não são segmentos reais, muito menos comunidades. São matrizes de comportamento, muitas vezes induzido pela própria oferta “sob medida” num procedimento tautológico, uma profecia auto realizada. 

Comunidades ou segmentos têm um atributo que essas bolhas de múltiplas interseções não têm: interação dialética entre membros, a partir de um conjunto flexível de valores que lhes confere uma identidade compartilhada. Simplificando, a dinâmica local é capaz de lidar com a complexidade de uma forma que a operação em escala não pode, porque o âmbito local tem um atributo que falta à última: uma qualidade relacional, que dispensa a economia cognitiva do princípio de Pareto. Diante de um serviço de VoD, o consumidor interage com uma matriz que simula e ecoa seu próprio comportamento (o da matriz, não o do indivíduo que ela simula). Naquele ambiente, o indivíduo é posto diante de conteúdos que têm elementos em comum com outros conteúdos que este consumiu, em uma metonímia da relação com o conteúdo. Do outro lado do mecanismo, o criador vai sendo conformado a essa matriz de indicadores de preferência tentando adivinhar qual será o Trend mais procurado pelos executivos do mercado no ano que vem, ou seja, tenta se adiantar às conclusões do algoritmo e “hackear” a lógica do sistema. Coincidentemente, esse é o termo usado para referir o escritor ou roteirista que produz conteúdo baseado em trends: “Hack”. Mesmo numa plataforma como o Youtube que, a princípio, permitiria um match mais capilarizado entre criadores e público, a tendência histórica foi o afunilamento do compartilhamento de receitas, exigindo do criador de conteúdo um fluxo cada vez maior (e mais impessoal e genérico) de audiência para ter acesso a uma remuneração satisfatória. É natural que a tendência seja essa, afinal, a progressiva diluição da complexidade em bolhas de previsibilidade se adequa muito melhor ao sistema verticalmente limitado dos sistemas de informação que temos hoje à disposição. Não há dúvida de que, mesmo limitados, tais sistemas permitiram a monetização (ao menos no agregado) de conteúdos antes fadados à descontinuação, mas ainda é cedo para avaliar os impactos desse modelo de organização produtiva uma vez que a voracidade com que tais serviços vem comissionando mais conteúdo inédito pode ser explicada tanto pelo viés da alavancagem financeira suntuosa de suas holdings quanto pela suposta eficácia em atender a uma diversidade maior de afeições segmentadas. 

De uma forma ou de outra, já parece evidente que no centro do labirinto de dados jaz a mesma premissa reducionista da indústria tradicional: agregar e padronizar. Os sistemas de hoje são capazes de dar soluções simples para problemas complexos, mas os sistemas que vão emergir num futuro próximo serão capazes de dar a esses problemas soluções igualmente complexas.

A questão é, portanto: como contornar ou superar a limitação vertical existente no mercado de conteúdo (sua estrutura social piramidal), que pouco foi amenizada pelos atuais sistemas autônomos de informação?

A resposta pode estar nessas mesmas plataformas e sistemas. Conforme secaram as receitas compartilhadas de publicidade no Youtube, os produtores de conteúdo da plataforma buscaram outros modelos de remuneração e um desses modelos é particularmente relevante para nós. Plataformas de patrocínio ou colaboração, como Patreon e similares, promovem a aproximação entre criadores justamente por meio do compromisso financeiro. O patrono, na mesma operação, financia a produção, paga pelo conteúdo, ingressa na comunidade e estabelece um canal de comunicação com o criador. Na comunidade criativa, outras redes e serviços buscam concretizar essa capilarização associada à remuneração. A plataforma Fiverr é um exemplo, popular entre profissionais criativos, para a oferta de serviços especializados. O site, que tem de ilustradores a editores de vídeo, converteu-se em uma vibrante comunidade em que emergem parcerias entre criadores de diferentes especialidades que conseguem remunerar-se minimamente ou contratar serviços por custos acessíveis. Um passo além nesse modelo, a plataforma Daisie, promove a colaboração entre criadores fornecendo uma ferramenta de busca por parceiros para suprir habilidades específicas para projetos criativos. Outras plataformas, como FilmarketHub, tentam nivelar o campo no competitivo mercado de desenvolvimento de projetos para TV e Cinema, agregando de forma organizada projetos e Specs de todo tipo, facilitando ainda o trabalho de quem, do lado de dentro da indústria, precisa de orientar na seleção de boas ideias em meio a um oceano agitado de criatividade e pressão por resultados.

Iniciativas como as citadas acima e muitas outras são exemplos de como as tecnologias informacionais de que dispomos hoje podem ser usadas para permitir que os empreendedores criativos, no ambiente fragmentado da base da pirâmide, possam extrair alguns dos benefícios de ganho de escala até então concentrados nos gigantes do setor. Me parece que esse é um caminho que tem muito ainda a ser explorado. Até hoje, apesar de toda reverência e temor que causam os gigantes da tecnologia, temos nos limitado a colher os frutos dos galhos baixos e mais acessíveis das tecnologias de tratamentos de dados. Com isso, alguns dos problemas mais rigorosos impostos pelo universo da complexidade permanecem intocados. 

Estou convencido de que um desses problemas é o imenso potencial represado para um mercado verdadeiramente diversificado de conteúdo criativo. E quando falo desse mercado diversificado, me refiro a um grau de capilaridade monetizada inimaginável para os padrões atuais, potencializado por reduções dos custos de produção que deverão continuar acontecendo nos próximos anos. Todo esse potencial para produção de riqueza, tanto cultural quanto econômica, está hoje represado pelas limitações lógicas dos grandes agregadores e organizadores econômicos da indústria cultural, prisioneiro da armadilha paretiana. No momento em que essas grandes represas se romperem por obra de uma próxima disrupção, o impacto será equivalente ou maior do que observamos nos últimos vinte anos.

Continua em Queimando Café (Parte 5) – Como Sobreviver como Criador no Século XXI.

Daniel Mattos

Daniel Mattos

Nasceu em Petrópolis, em julho de 1975 e recebeu o nome de Daniel Vidal Mattos. Desde então está em busca de respostas sobre o que é ser Daniel Vidal Mattos, nascido em Petrópolis em julho de 1975. Não se parece com a foto aqui publicada.

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