XXIX. Mística

XXIX. Mística

Antes: XXVIII. Dia de Surfe

Pegaram a estrada de volta para o Montanha Russa ao pôr do sol, o que sempre proporcionava grandes visuais naquela imensa área verde de relevo gingante que beirava o litoral. Kitz, Zoila e Pedro ficaram na casa de Martin, mas Roserite seguiu com o boca mole, que dirigia o carro da Medéia. Quando estavam chegando perto de seu destino, no entanto, Roserite se ligou nas luzes da viatura de polícia estacionada mais à frente:

– Para o carro aqui, brother! Esqueci um negócio lá na casa daquele parceiro. Depois eu te encontro lá!

O sentido de aranha tinha voltado. O velho moleque parou o carro e deixou Roserite a pé, que fingiu subir a rua no sentido contrário apenas o suficiente para espiar a interação não pacífica que se deu a seguir. Assim que estacionou em frente à casa da Medéia e saiu do carro, o idoso de 31 anos foi intimado, revistado, esculachado, autuado e levado algemado na viatura, que passou rente a Rosera na saída da rua. Tudo como se tivesse sido pego em flagrante com um carro roubado. Um padrão que entretanto já não lhe era estranho.

Quando Martin e os demais chegaram, a picape ainda estava fora. Estranho. Se tivessem ido almoçar, já teriam voltado. E era o último dia do ano. Daqui a pouco todos desceriam para a festa no clube. Martin então viu Cris, que parecia ter acabado de acordar, mas não, na verdade estava chorando, e perguntou:

– Cadê a Mari? E meu pai?

– A Fabiana faleceu, Martin.

Pelo contexto da informação, ele sabia exatamente a qual Fabiana a irmã de Zoila estava se referindo. Mesmo assim, por uma fração de segundo, a polissemia coincidente foi capaz de provocar espasmos internos em sua alma. Era a melhor amiga de infância de Mari. A Fabi “Mística”, apelido semi cruel que ganhou na entrada da adolescência devido à sua pele pálida, azulada pelos vasos sanguíneos aparentes, e pelos lábios quase sempre arroxeados, sinais de uma deficiência cardíaca congênita. A Mística dos quadrinhos, rival e depois integrante dos X-Men, Raven Darkhölme. Tinham crescido juntas desde a pré-escola, e viviam na casa da outra. Quando na de Mari, Martin e Filho sempre competiam pela atenção da pequena donzela de aspecto frágil, frequentemente em perigo naquelas aventuras de criança.

Sempre ao lado, de mãos dadas nas gangorras e balanços da vida, dançando Menudo, e depois lambada, trocando confissões do primeiro amor, e do primeiro beijo, Mari e Fabi foram inseparáveis durante toda a infância, até o fim do ginásio.

– Quando você crescer, eu vou ser a sua fada madrinha! – Disse um dia a pequena Fabiana, que ainda não era a Mística, para Mari. Os olhos da irmã de Martin brilharam, e então ela repetiu a frase que parecia ter dito à amiga para sempre, mas naquele momento apenas a atormentava como uma promessa impossível de ser cumprida:

– Eu também vou ser a sua fada madrinha!

Por conta do agravamento de sua condição, nos últimos dois ou três anos Fabiana quase não saía de casa, o que forçou a um afastamento gradual e compulsório das amigas, o que foi combatido e sofrido de muitas formas. Eventualmente, Fabiana tinha de se submeter a cirurgias de emergência no coração. O que tinha sido o caso naquela segunda-feira, que seria sua última. Tinha dezesseis anos apenas. Assim como Mari. Como Cris. E Fabi.

A notícia bateu em Martin como um soco na cara. Não que fosse tão inesperada, mas porque era uma confirmação. A morte era real e acabava de levar a primeira pessoa do seu convívio e da sua geração. As circunstâncias faziam-no quase concordar por um segundo com os argumentos de Pedro: doenças e acidentes comprovavam a inexistência de um deus moral. Se existisse qualquer força superior, esta seria fria e impessoal, completamente alheia aos dramas humanos.

Mas, e se tais acasos, absurdos, e toda a maldade e sofrimento que deles podem brotar, forem eles mesmos o melhor de todos os mundos possíveis, dimensão apenas acessível a um ser onisciente? Da onipotência como requisito divino Martin já tinha abandonado há tempos. Por definição, Deus nunca poderia deixar de ser Deus, por exemplo. Nem poderia criar outro como Ele. A onisciência, não. Esta sim lhe parecia o atributo divino por excelência.

Martin desceu sozinho para a praia. Foi o primeiro dia daquele fim de semana em que choveu antes de escurecer. Uma garoa fina, fria, quase como se anunciasse uma mudança de estação, e contrastava com um céu límpido, de um escuro profundo que consumia lentamente os tons laranjas e violetas no fim do crepúsculo. Então ele lembrou de tudo num flash, e de suas próprias promessas para a Mística que jamais faria. E seus olhos encheram de lágrimas. Já não era apenas suór másculo, era choro, medo, impotência, frente ao destino. Ali, derramou seu amor pelas areias, e admirando a perfeição de um céu sem sombras, teve quase a certeza de que em algum dia iria reencontrá-la. Ou em alguma outra dimensão.

O enterro tinha sido marcado às pressas para a manhã do dia 31, o último do ano. Por isso o pai de Martin saíra cedo de casa com a picape. Filho tinha ido com Mari. Quando chegaram em casa após aquele dia mágico surfando, todas as cerimônias já deviam ter terminado. Bárbara tinha acabado de atender a uma ligação da mãe. Ela e o pai de Martin passariam a virada de ano no Rio, e retornariam ao Montanha Russa no dia primeiro. Mari tinha decidido ficar de vez. Com Filho.

– Agora vai ter vaga pra vocês aqui em casa. – Avaliou Babi, tentando trazer algo de positivo para um clima horrível.

Kitz e Zoila resolveram subir até a estrada para pegar suas mochilas na bomba. Roserite, que continuava por ali no quarteirão da praia rodeando a casa da Medéia, aproveitou um momento em que a mesma tinha saído com o carro, deixando a casa daquele jeito que ele sabia como, e entrou furtivamente. Foi direto à suíte e retirou das entranhas inferiores do boneco do Babyssauro uma catumoila que tinha escondido lá em algum momento da sua grande viagem. Ao sair, achou a cara da pelúcia engraçada e zombou:

– Não é a mamãe!

Roserite não trocava de roupa, nem dormia ou se alimentava direito, há dias. Com a última e única cédula de cinquenta que lhe restava no bolso, resolveu fazer um rango completo no restaurante do clube, que já estava aberto para a festa de Reveillon. Após aquela expression session épica, estava completamente exausto. Mas, como não podia dormir ali mesmo no clube, resolveu se esticar na areia da praia, embaixo do quiosque lambido no picolé de fogo. E dormiu. Dormiu profundamente.

No acostamento da estrada, alguns metros no mato adentro, Kitz teve a certeza de que a vegetação que sustentava a bomba estava cedendo:

– Aí, Zoila… Vai dar merda isso. Essa porra vai despencar daqui…

Tentando dissuadir o amigo, Zoila subiu por fora da porta do motorista e se balançou:

– Vai nada, leque… Tá firme, ó…

“CRAAACK”

O enorme estrondo de madeira quebrando fez Zoila saltar imediatamente, como um gato, da bomba para o mato. A sucata então avançou quase um metro à frente, empurrando os galhos que ainda lhes davam suporte, antes de novamente se equilibrar.

– Caralho, leque! Tu quase se fodeu agora!

– Mas agora tá firme. – Respondeu Zoila, avaliando a nova geometria da situação.

– Testa aí. – Caçoou Kitz.

Zoila não testaria mais, e nem respondeu. Não era otário. Mas agora não tinham muito o que fazer. Já estava de noite, iriam descer novamente pelo mato. Amanhã talvez poderiam avisar aos bombeiros, ou à defesa civil, Martin saberia dizer. Talvez. Ou talvez fossem continar apenas seguindo suas vidas, o que era mais provável.

Antes de partir, porém, Zoila colou o resto da goma de chiclete que estava mascando no vidro traseiro da bomba, como se estivesse marcando seu território, ou assinando uma obra de arte. Teria muita coisa sobre aquele carro para contar aos netos no futuro. Se tivesse netos. E se tivesse futuro.

Enquanto isso, na praia, quando Davi passou pelo quiosque torrado como um enorme palito de fósforos e viu quem estava ali, roncando como um mendigo sujo, se animou maquiavelicamente:

– Olha quem tá dormindo na rua! – Exclamou o batera da nova banda preferida de Martin, já reunindo os amigos para uma pequena vingança.

Continua…

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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