XXV. Trabalho de Base
Antes: XXIV. O Jardim das Delícias
Após deixar a casa de Medéia, Zoila subiu a rua, onde encontrou Pedro e Filho conversando na varanda de casa:
– Acho que Roserite foi preso. – Comentou com naturalidade, quase em passant.
– Como assim, cara? – Indignou-se Pedro.
– É… Quê isso, Zoila? – Alinhou-se Filho.
– Foi o cara lá que disse. – Explicou Zoila.
– Que cara? – Perguntou Filho.
– Sei lá… Acho que era vizinho.
– Hã? E tu não avisou que conhecia o Roserite? – Quis confirmar Pedro, já sabendo a resposta.
Zoila nem respondeu. Filho sugeriu, animado:
– Então bora lá falar com o cara!
– Bora lá vocês. Me inclui fora dessa. – Avisou Pedro.
– Deixa de ser cagão, leque. – Provocou Filho.
– Cagão é o caralho, cara. Vocês que são amigos do Alexandre. Vai lá vocês!
– O cara disse que não sabia de mais nada. – Disse Zoila, encerrando aquela possibilidade, e mudando rapidamente de assunto:
– E a Kissy?
– Foi com as meninas na casa dos carinhas da banda. – Informou Pedro.
– Fazer o quê? – Não gostou Zoila.
– Foram ajudar a preparar uma festa que vai rolar hoje à noite. – Deu a letra Filho, que já tinha obtido com Cris (quase) todo o serviço.
– E a gente vai de como? – Tropeçou Zoila nas preposições.
– Mari deixou claro que não quer me ver por lá. E que se eu for, ela vai voltar pra casa. – Disse Filho, tristemente, antes de concluir seguindo sua lógica peculiar: – Então eu vou ter que ir lá, né?
Zoila olhou para Pedro, que informou:
– Tua irmã disse que “gente” pode ir. Basta levar alguma bebida. Ela enfatizou a palavra “gente”, tipo diferenciando dos animais, quando explicou qual era o esquema dos caras. – Explicou Pedro.
– Então bora arrumar as bebidas. Cadê o Martin? – Perguntou Zoila.
– Ele e Kitz saíram de tarde e ainda não voltaram. – Respondeu Filho, desenterrando o assunto: – E a Roseira, galera? Temos que ir na cadeia soltar ele.
– Como assim ir à cadeia, cara? SE esse boato que o Zoila ouviu na vizinhança for verdade, ele pode estar em qualquer delegacia da Praia Grande…
– São quantas?
– Não faço ideia, cara. Dá uma olhada na lista telefônica. Tem uma na sala.
Mas foi Pedro quem acabou passando o resto da tarde ligando para delegacias da região tentando saber notícias de Alexandre Figueira. Filho e Zoila desceram ao clube para arrumar bebidas. Ninguém tinha achado nada ainda sobre Roserite quando Martin chegou de carro, quase à noite. Após receberem as atualizações, Kitz resolveu conferir informações in loco na casa de Medéia. Na verdade, entendeu também que seria uma ótima oportunidade para rapelar a gaveta de drogas, se a casa estivesse mesmo vazia.
Quando Kitz chegou à casa, no entanto, tudo estava exatamente como ele tinha deixado: uma grande balbúrdia. Estavam lá os cracudos, o barrigudo calvo, as janelas quebradas, o espaço vazio do som roubado. E até a Medéia, chapadassa no sofá com uma garrafa de uísque na mão. Talvez tudo mais sujo, mais fedorento, mas na mesma vibe de antes. Zoila tinha viajado com essa história de cadeia.
Kitz entrou na suíte afoito, farejando a gaveta. Mas parou e deu um pulinho de espanto quando viu a cena: Roserite estava deitado na cama, recebendo claramente um boquete de alguém que estava totalmente coberto por um edredon. Os cristais, baldes com água, velas acesas, a prancha BZ servindo como altar, tudo continuava ali. Mas se não era a Medéia no serviço, era quem? Imaginou o pior cenário. A Rosera pelo menos estava gostando. De olhos fechados, falava frases pouco inteligíveis tipo: “Isso… Sim… Sim… Por Netuno! O swell vai entrar! Eu sinto que o swell vai entrar!”
Como Kitz tinha uma missão, não perdeu mais tempo. Quando abriu a gaveta, no entanto, decepcionou-se: agora havia apenas umas poucas fitas de ácido e um papelote de cocaína, filho único. O babyssauro parecia zombar da sua cara. Aquela galera tava fumando, e cheirando, e se intoxicando demais. Ainda bem que vovô já tinha salvado a erva. Quando deixou o quarto, deu de cara com o velho moleque, ele mesmo, o cara da árvore, seguindo na direção contrária.
– Graças a Deus, cara! Agora vocês me deram um susto… – Confessou Kitz, com a mão no ombro do idoso de 31 anos, que obviamente não entendeu o motivo daquele alívio.
Kitz saiu dali achando que a segunda opção era quase tão ruim quanto. Quando voltou à casa dos amigos, os tranquilizou: Roserite estava numa boa. Ou quase isso. Um sedã de luxo passou em frente à varanda onde estavam e parou a apenas alguns metros adiante, antes de dar marcha a ré. Quando o vidro elétrico do bando de trás baixou, Kitz viu a coroa advogada erguendo os óculos escuros antes de convidá-lo:
– Rafa? Voltei hoje pra passar a virada. Gosta de uma praia à noite?
– Muito. – Resumiu Kitz, com um sorriso de orelha a orelha no rosto.
– É o trabalho de base bem feito, galera. Trabalho de base. – Murmurou antes de se adiantar para entrar no automóvel, sem nem mesmo se despedir do resto da turma.
Continua…

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