XXX. Do Paraíso
Roserite acordou aterrorizado de um sonho bem estranho do qual ele não lembraria depois. Estava trancado num canil de cachorro. Ao seu lado, separado apenas por uma grade de ferro, um enorme cão rottweiler preto latia sem parar em sua direção, de forma ameaçadora. O animal era agora seu vizinho de cela, presos em dois cubículos contíguos com menos de metro e meio de altura. Quando ouviu os fogos, lembrou que já era a véspera de ano novo. E também percebeu que aquela situação bizarra não fazia parte do sonho, embora parecesse.
Na casa da Medéia, o boca mole obviamente já tinha sido liberado na delegacia e agora tentava fazer um café para se acalmar. Quando percebeu que o fogão não acendia, teve de religar o gás. Precisava do café. Não tinha encontrado mais nenhum papelote, nem pino, nem nada. O policial, que tinha acabado de meter na Medéia na suíte, prometeu a ele que arranjaria, mas talvez demorasse.
Cris se aproximou de Martin, que estava sentado na areia da praia, de frente para o mar, há pelo menos uma hora, e sentou-se ao seu lado. Agora já era noite, e o brilho dos fogos que já espocavam pelo céu uma vez ou outra se refletia na superfície tremulante da água, provocando maravilhosos efeitos visuais que Martin acompanhava para tentar não pensar muito nas outras coisas. Ela então beijou seu rosto e o abraçou apertado, tentando consolá-lo.
– A gente nunca daria certo. Ou pelo menos agora. Isso. Acho que a gente nunca daria certo agora. – Disse ela após um longo tempo ali ao lado de Martin, hipnotizada pelos mesmos efeitos das luzes na água.
Ele se surpreendeu com a iniciativa. Em alguns momentos daquele fim de semana, teve a impressão de estar novamente flertando com a irmã de seu amigo, mas agora não. Agora ele percebia algo mais profundo, diferente. Cris confiava nele. Não era mais um estranho.
– Eu gosto de você. Eu sempre gostei de você. Talvez eu não tenha te amado como você acha que me amou. Tudo bem. É que você parecia ter tudo planejado, e eu gosto de ter opções. Na verdade, acho que a vida me ensinou que eu preciso sempre ter opções…
Martin apenas concordou. Estava emocionalmente em frangalhos, só queria ouvi-la, o que lhe fazia bem.
– Talvez eu tenha perdido alguma oportunidade de ser mais sincera com você. Eu tava completamente apaixonada. Só queria estar ali, viajando contigo nas suas ondas.
E enquanto ela falava ele curtia seu jeito de menina se descobrindo superpoderosa, a luta para superar carências e o quanto aquilo tinha a ver com seu pai maluco. E percebeu o quanto sua história com Fabi talvez tivesse também esse mesmo componente: queria não apenas possuí-las, mas sobretudo protegê-las, cuidar delas nessa vida e nas demais se existirem, dar-lhes descendência, eternizá-las.
– Eu sempre fui sincero com você. – Defendeu-se Martin, sem necessidade.
– Eu sei. Por isso dói ver que não deu certo.
– Agora. – Disse Martin.
– Isso. – Relembrou Cris, antes de sorrir: – Acho que a gente não perderia outra chance.
– Vem com a gente pra fogueira?
Somente agora Martin tinha percebido que Pedro a esperava, pacientemente, perto dali. Então ele se ligou: estudavam na mesma escola técnica, tinham passado muito tempo juntos naquele fim de semana, trocavam confidências. E lembrou de quando ele e Pedro, ainda na pré-adolescência, eram completamente apaixonados pela irmã de Zoila, à época namoradinha do imbecil do Filho.
– Vocês estão ficando desde quando? – Perguntou Martin, sorrindo, sentindo-se abrigado pelo círculo de confiança.
– Desde hoje. – Disse ela, que ficava ainda mais linda envergonhada. – Na verdade ele já tava querendo há mais tempo…
– Eu sei. Sempre fomos apaixonados por você.
Cris corou de vez. Martin provocou:
– E o cara da banda?
– A namorada dele chegou hoje. – Repondeu Cris, divertida.
– Hã? Que filho da puta! Mas você sabia disso ontem?
– Não. Mas foi ele que perdeu a oportunidade de ser sincero comigo. – Concluiu, poderosa.
Martin ali teve a certeza de que jamais perderia outra chance.
No acampamento que Pedro e Cris tinham montado na areia da praia para a virada do ano, havia uma canga esticada com comidinhas, uma bolsa térmica com bebidas e uma pequena fogueira.
– E o Roserite? – Perguntou Zoila.
– Deve tá na casa da Medéia. – Encerrou o assunto Kitz.
Preso no cativeiro animal, Roserite já tinha controlado o pânico inicial e agora já conseguia pensar no que fazer para sair dali. Acima de tudo, era um espírito livre, precisava escapar. O rottweiler continuava latindo alto e ritmado, ininterruptamente. Os fogos espocavam com cada vez mais frequência. O ano novo já devia estar chegando. Tentou gritar, mas ninguém ouviu. Se fosse Zoila ou Filho, estaria brutalizando de alguma forma aquelas pesadas telhas de amianto que cobriam o canil. Se fosse Martin, ou Kitz, bolaria alguma tática mirabolante, um truque de McGyver para chamar a atenção e escapar. Pedro jamais se colocaria numa situação daquelas. Mas e ele? O que poderia fazer de melhor? Então lembrou que tinha uma catumoila no bolso. Apertando um baseado era um artista. Deu uma olhada ao redor e viu um maço vazio de Marlboro vermelho meio amassado, do lado de fora da cela. Pronto. Esticou o braço e garantiu a seda. A desberlotagem seria na unha. Mas também precisaria de fogo.
Quando Martin se juntou aos amigos ao redor da fogueira, Cris pegou o violão de Mari, que tinham levado pra lá, e dedilhou uns acordes, o que imediatamente pareceu despertar o irmão. Zoila então sacou do bolso sua gaita e começou a tocar o solo inicial de Slow Emotion Replay, do The The, que ele reproduzia com perfeição magistral e muito sentimento. Ele e Cris então conduziram o grupo a uma congregação espiritual tão profunda, guiada por canto, ritmo, emoção e até um pouco de fé compartilhada, o que os homens um dia chamaram de igreja. Aquela letra era uma espécie de hino para Zoila: quanto mais ele via, menos sabia; e enquanto todo mundo parecia saber exatamente o que havia de errado no mundo, ele não fazia a menor ideia do que se passava nem dentro dele mesmo. O filho da puta era tão ou mais talentoso que a irmã, com a diferença de que também era extrovertido. Bonito, cantava bem, tocava diversos instrumentos de ouvido. Mas era completamente piroca da cabeça. Cris parecia levar bem melhor aquela assinatura do abandono paterno. Talvez só parecesse.
Apesar de tudo, Kitz estava meio cabisbaixo durante todo o dia. Tinha sido escanteado pelo magnata no campo dele. Foi quando percebeu, no convés de uma lancha que estava ancorada em frente ao acampamento, o vulto de uma deliciosa silhueta feminina, gesticulando na direção deles. Na direção dele, especificamente, como pode perceber segundos depois. Puta que o pariu. Era o trabalho de base, com certeza. Quando Kitz se aproximou do mar, pode ouvir exatamente o que a coroa advogada queria:
– Oi Rafa! Quer embarcar?!
Se queria? Alguns não entenderam quando ele começou a tirar a roupa por ali mesmo e mergulhou na água rumo àquela chance clara de gol. Martin então viu Zoila e Babi, Pedro e Cris, violão acalentando e taças de vinho ao redor da fogueira. Logo percebeu que estava sobrando e foi dar uma volta. Quando já pensava em dar uma passada na festa do clube, encontrou Marcelo, à beira d’água, também em estado contemplativo, com uma ponta acesa:
– E aí, meu brother… Tudo certo? Vai um dois?
Martin aceitou, mas dessa vez antecipou-se com respeito:
– É skunk?
– Não, esse é palha. Pode ir fundo.
Martin deu dois tapas e realmente não sentiu nada. Se Filho estivesse ali, provavelmente jogaria o baseado no chão, só de raiva.
– Pode crer. Esse é chá de burro.
Ficaram por ali torrando o chá durante alguns minutos, falando da vida. Marcelo lhe avisou que tocariam logo após a virada numa festinha na Praia Grande, e convidou o novo amigo a ir com eles. Martin pensou em aceitar, já era um fã oficial da banda, mas olhou de longe para a fogueira, e também quis muito estar ali. Se houvesse um paraíso na Terra, um Jardim do Éden, devia se parecer com aquilo.
– De repente é uma. – Titubeou.
Marcelo então lembrou de algum detalhe na conversa que haviam acabado de ter, e finalmente perguntou, curioso:
– Mas vem cá, meu irmão? Que porra é essa de farnanga?
O policial tinha chegado na casa da Medéia quase à meia-noite com uma carga de cocaína recém apreendida, anunciando com toda a pompa e muita marra:
– Eu falei que ia nevar nessa casa hoje!
O velho moleque, que àquela altura estava numa cozinha já completamente emporcalhada, fritando alguma coisa pra comer, logo comemorou quando percebeu a salvação:
– Aí brincou!
Na lancha, apenas de cueca, Kitz subiu ao convés molhado, sendo recebido pela coroa com uma taça de champanhe e um roupão:
– E eu que achei que ia passar o Revéillon sozinha nesse barco com o marinheiro…
“Gulosa”, pensou Kitz, já subindo pra cabecear:
– E agora tem dois aqui só pra você. – Avançou já beijando a coroa, na pegada do macaco: – Mas agora ele tá ocupado, pode esperar.
Enquanto isso, Roserite já tinha um cigarrão apertado estrategicamente posicionado atrás da orelha. Meio impaciente, meio desanimado, olhava a todo momento para o pouco do céu que podia espiar fora da grade. Seu companheiro de xadrez canino continuava latindo sem parar.
A contagem regressiva para o ano novo já tinha começado em todo lugar. No Rio, Mari abraçou Filho e desabou, chorando copiosamente em seu peito. Tinha passado todo o tempo no cemitério sozinha, se mantendo ou se fingindo forte. Mas ali tinha voltado a ser apenas uma menininha com uma promessa quebrada.
À beira da praia, no Montanha Russa, Martin lembrou que tinha um baseado da catumoila na carteira (sempre tinha) e pensou que seria de bom augúrio passar a virada fumando um produto fino, e não aquela bosta de vaca. 10, 9… Com velocidade, sacou o cigarrilho, mas não tinha isqueiro. Olhou para Marcelo, que queimava o resto da palha, mas ele também não tinha. 8, 7… Só restava acender um cigarro no outro. Marcelo entendeu a urgência. Se não conseguissem acender a maconha da boa a tempo, nada daria certo no novo ano! 6, 5… Mais que de repente, naquele momento, ele e Martin voltaram a ser como dois garotos de bicicleta que decidem virar a curva da esquina antes do ônibus, senão tudo o mais se explodiria. 4, 3… O vento na praia atrapalhava muito. Mas tinham que carburar. 2… Um rosto à frente do outro, brasas se encontrando, contagem zerando. 1! Acendeu! Ufa!
No canil, na contagem do zero, um resto de morteiro entrou pela grade do cubículo onde Roserite estava, ricocheteou na parede ao fundo e parou justamente aos seus pés, como o cabeçote incandescente de uma varinha mágica. Sem pestanejar, ele trouxe o providencial isqueiro improvisado à boca e acendeu seu baseado. Pela primeira vez naquela noite, seu amigo de cela tinha parado de latir.
Já na suíte da Medéia, enquanto a neve de fato caía fora de época (?), a dona da casa, o polícia, o barrigudo calvo, o boca mole e os cracudos se perdiam na luxúria. Na cozinha, porém, uma panela esquecida com óleo e sabe-se lá mais o quê começou a provocar um incêndio, que rapidamente se alastrou em restos de papel, toalhas e cortinas.
Aliviado por ele e Marcelo terem completado aquela missão de vida ou morte, Martin sentiu-se bobo por um segundo, mas aí viu que funcionou. Por entre as pessoas que comemoravam na areia, como se também estivesse procurando por ele, estava lá a pequena sereia de cabelos dourados. A sua australianinha. Não mais de moletom e chinelo. Parecia mais madura, mais forte, mais ela mesma. Ou outra ela mesma. Na cabeça de Martin, começou a tocar Just Like Heaven, do The Cure. E então ele imaginou por um instante todas as formas diferentes que ele poderia fazê-la brilhar. Ela era mesmo igualzinha a um sonho. Igualzinha ao paraíso.
Continua…
