XXVIII. Dia de Surfe

XXVIII. Dia de Surfe

Antes: XXVII. Festa Maldita

No último dia do ano, Martin, Pedro, Kitz e Zoila voltaram no fim da manhã para o Montanha Russa. Antes que pudessem chegar em casa para comer alguma coisa, no entanto, Roserite passou dirigindo o carro da Medéia, que tinha ainda o vidro quebrado. Após duas buzinadas rápidas, o boca mole de 31 anos exclamou:

– Aí, brother! O ritual funcionou! O swell entrou! O swell entrou!

Kitz e Zoila correram para pegar as pranchas e pés-de-pato, e se jogaram no banco de trás do carro da Medéia. Martin notou que a picape não estava por ali, pegou as chaves do Kadett e seguiu atrás de Roserite com Pedro e o resto das pranchas, sem confiar muito no boca mole e seu ritual imbecil. Anes de sair, ele ainda gritou por Filho, mas não obteve resposta.

– Aí Rosera… – Adiantou Zoila, a caminho da praia: – Tivemos um acidente com a bomba, leque. O carro agora tá fora de combate…

– Tranquilo, bro. Acho que meu avô tem seguro. – E continuou dirigindo, aparentemente sem perceber o absurdo que acabara de dizer. Como aquela bosta não tinha valor, qualquer acidente seria perda total. Perda total de zero.

Apesar disso, Kitz logo percebeu que o velho Roserite estava de volta quando o viu cada vez mais ansioso antes de chegar à praia e poder conferir as ondas. E também porque logo chamou a atenção de Zoila quando este sem querer acabou forçando o bico da sua BZ nova. A mesma que até ontem estava coberta de velas e cristais.

Quando Martin estacionou o carro na praia que voltou a merecer o título de paradisíaca, já conseguia vê-las no horizonte do mar. Aquela linha perfeita de ondas, mar liso como piscina, em intervalos absolutamente regulares. Lindo, perfeito, clássico.

– Não é possível. – Disse Pedro, tirando as pranchas do carro.

Martin viu que, mais à frente, Zoila e Roserite já tinham saltado os degraus da escada rústica que levava do estacionamento à praia, e agora corriam em direção ao mar. Naquele dia especial, swell mágico, parecia estar todo mundo na água: Cacá e a galera do Montanha Russa, a turma da Praia Grande, os farnanga. Tinha onda para todos os gostos, mais cheias, cavadas, tubulares, todas com até um metrão de altura. De repente, não havia mais espaço para rivalidades, apenas a comunhão de uma tribo que gosta de captar as energias poseidônicas deslizando sobre ondas.

Roserite, que era o melhor surfista da galera, fez a mala. Cansou de enfileirar tubos, emendar com rolos, 360, aéreos. Zoila e Filho, que além do bodyboard pegava onda de fibra, também eram muito bons, mas nenhum deles passava tanto tempo na praia quanto a Roseira, que praticamente dedicava todos os seus momentos de ócio ao surfe, quando as condições permitiam. E Kitz teve certeza absoluta de que o amigo tinha voltado às plenas capacidades mentais depois que ele fez cocô na água e ficou empurrando os detritos na direção dos outros, o que irritava profundamente Martin.

– Sai, cocô! Sai, cocô! – Gritou Roserite, empurrando o tolete que boiava na água em direção aos amigos.

Então eles surfaram, e surfaram, e surfaram, por toda a tarde. Sem pressa, mas também sem preguiça. Ali todos podiam se dar ao luxo de escolher somente as melhores ondas. Mas aparentemente todas eram as melhores ondas. Já começando a sentir aquele cansaço bom de após uma inesquecível sessão de surfe com os amigos, Martin olhou para Roserite, e para Pedro, e para Zoila, e para Kitz, e desejou que Filho também estivesse ali com eles, como nos velhos tempos em que eram apenas pré-adolescentes chatos dentro da água, no posto 9 do Recreio. E novamente se sentiu feliz, mas já não sabia se queria que Fabi estivesse ali, ou a loirinha da festa, ou Cris. A fita ele tinha emprestado, mas veio à sua cabeça a letra de All over the world, do Spy vs Spy:

All over the world
There’s more than meets the eye
Land and sea to share
Red yellow black and white

All over the world
There’s darkness and there’s light
Sad stories are told
But it’s good to be alive

De fato era bom estar vivo. Roserite a viu se insinuando ao longe, ainda um vulto no horizonte. Remou rápido pro outside: tinha um verdadeiro motor nos pés quando usava as nadadeiras. Quando ela de fato se formou, muito mas muito atrás da linha da arrebentação, a galera que estava na areia nem acreditou. Era uma onda gigantesca, impossível de ser gerada ali em condições naturais.

Roserite se posicionou bem para o drop. Era o único de todo o crowd a ter alguma chance com a morra. Aquilo não era uma Rainha, era uma verdadeira Imperatriz. Uma onda fantasmagórica, cujo tamanho, beleza, força e perfeição podiam hipnotizar qualquer surfista. Enquanto remava para descer, o que quase não foi necessário, Roserite percebeu que estava se reconectando completamente àquela realidade, que não era o “colégio”, onde ele acreditou estar nos últimos dias. Era a praia paradisíaca, aquela mesma que estava totalmente flat quando chegaram, e onde depois ele e Zoila apanharam que nem boi ladrão.

E ele cuidou de não se desgarrar muito da base quando dropou, logo assumindo uma posição dentro, mas muito dentro do gigantesco tubo que se formou, miraculamente. A onda tinha uns dois metros de altura, ou mais. Se estivesse em pé, ainda assim o teto do tubo estaria bem acima de sua cabeça. Mas estava deitado em sua BZ, olhando fascinado para cima, em posição de extrema humildade frente à força da natureza. Um dia Martin tinha lhe contado que, na nobreza havaiana, somente o Rei podia surfar de pé. Devia ser por isso. E ele não era um Rei. Sabia muito bem dissso. Não era o mais inteligente, nem o mais corajoso, nem o mais sensato, nem o mais pegador. Nem mesmo o mais maluco. Era só o melhor surfista. E tava bom, ô se tava.

Durante alguns dramáticos segundos, toda a gente que estava na praia parou para ver a Roseira surfando. Quer dizer, parou pra ver para ver aquela onda inacreditável que todos sabiam ter um cara ali dentro. E então ele pensou, escondido da visão de todos pelo enorme rolo compressor de água que o rodeava, que tudo ali continuava sendo na verdade mesmo o colégio, e que ele continuava aprendendo coisas novas todos os dias, e que sempre assumia o protagonismo da sua própria vida. Agora ia fazer uns cursos, pegar umas ondas, viajar o mundo, pegar umas ondas, isso aí. Faculdade? Não para ele. Não naquele momento. Provavelmente nunca, na verdade. Agora a única coisa que importava era como ele sairia dali.

Da praia, o resto do crowd gelou quando viu que aquela monstruosa massa de água se chocaria impiedosamente contra o costão de pedra, o que certamente trituraria um pobre bodyboarder abrigado no interior daquele tubo. Mas Roserite deu seu jeito de se adiantar no drop, sair do tubo e decolar como um foguete na última parede da onda, antes da explosão. Girando no ar com estilo, mandou o 360 aéreo mais alto que aquela praia já tinha visto e caiu na frente da onda, sendo engolido pelo violento espumeiro.

– Morreu! – Decretou alguém, na areia.

Claro que não. O autor gostava dele. Quando a série passou, e Roserite apareceu nadando são e salvo no outside, longe das pedras, todo o crowd se aliviou. Alguns puxaram palmas. Eram merecidas. Tinha apenas perdido sua prancha nova, mas tudo bem. Era uma oferenda pequena para tamanha bênção. Não há nada que um dia de surfe não cure. Ou quase nada.

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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