XXXI. Depois da Praia
O céu escuro daquele canto abençoado do mundo pipocava de fogos multicoloridos que encantavam humanos e aterrorizavam os demais bichos. Na encosta à beira da estrada, uma fila interminável de formigas se estendia do mato até o vidro traseiro da bomba, onde um resto de chiclete atraía muitos insetos. Justamente naquela noite, por conta disso, o morcego que normalmente estava se abrigando dentro daquela sucata abandonada resolveu se instalar do lado de fora, petiscando um banquete delivery de invertebrados.
Na praia, Martin e Fabi se abraçaram por um longo tempo. Ela tomou a iniciativa:
– Desculpe ter sumido… Tive uma convulsão naquela madrugada. Fiz uns exames no Rio, os médicos ainda não sabem direito o que é… Aquela noite foi intensa, cheia de emoções. Acho que eu quebrei.
– Eu fiquei preocupado. – Era o mínimo que podia ou queria dizer.
– Falaram de mioclonia, que é um tipo de epilepsia. Mas também pode ser outra coisa. Ou não ser nada.
– E o lance com seu pai?
– Não sei. Depois me senti estranha. Acho que foi o jeito que ele me abraçou, depois de tanto tempo.
– E sua mãe?
– Está tudo bem. Ela entendeu. Acho que eu entendi também. Talvez ele apenas não fizesse questão de estar perto.
E pela segunda vez na mesma noite, Martin apenas preferiu escutar do que falar, o que era raro, e se sentiu absurdamente bem com aquilo. E ela falou. Que queria fazer faculdade de artes e trabalhar com ourivesaria. Ou figurino, ainda não tinha certeza. Mas talvez tentasse um intercâmbio nos EUA antes, para ficar fluente em inglês. Tinha tantos planos para alguém tão livre, leve e solta, que Martin se admirou. E Cacá era um babaca mesmo, tinha merecido apanhar.
– Me dá seu telefone? – Pediu ele.
– Claro. – Ela sorriu: – Anota aí.
– Peraí…
Martin procurou algo na carteira para escrever o número. Achou o ingresso nº 0462 para uma matinê no Reggae Rock Café de São Conrado, no próximo domingo. Também não tinha caneta. Fabi tirou uma da bolsa e lhe entregou, antes de lhe ditar o número:
– 577-5071
– Você mora onde?
– No Grajaú.
– Ok. Fabiana do Grajaú. Agora não te perco mais.
Somente naquele momento, entre toda a confraternização etílica do povo na areia, o que incluía seus amigos tocando violão em volta de uma fogueira, e o ruído abafado do som que vinha do baile de Reveillon no clube, que bombava, Martin e Fabi se deram conta de que a atenção da maioria das pessoas já tinha sido atraída para a casa da Medéia, no quarteirão da praia, que a essa altura já era consumida por um incêndio que piorava a cada minuto.
Recostado no confortável sofá da cabine principal da lancha, Kitz assistia com satisfação àqueles dois espetáculos pirotécnicos, o que já era esperado, no céu, e o que também era, na casa da Medéia, bebericando de uma taça de champanhe. Ao seu lado, a coroa se encontrava nua, reclinada em almofadas com as pernas abertas, e duas carrreiras de pó convidativamente esticadas das coxas até a virilha.
Bem mais calmo após dois tapas, Roserite se comoveu com a situação do cão, que tinha parado de latir, e nesse momento apenas o obervava com atenção. Parecia interessado. Quem sabe não estivesse hont? Deveria. Ficar ali trancado no Reveillon era uma tortura. Depois ainda exigiam que o bicho se comportasse bem. Assim, num gesto que entendeu como de compaixão, ou piedade, soprou uma boa quantidade de marola em direção ao Rottweiler.
Martin e Fabi caminharam de mãos dadas pela praia, em meio àquele frenesi da virada – e da casa pegando fogo logo ali do lado, e seguiram depois pela trilha até o platô do trem. De lá, puderam ver quando os bombeiros chegaram para tentar controlar o incêndio. E se admiraram com toda aquela contradição, pois os fogos de artifício da virada, e a bateria tocando na festa do clube, não pararam um segundo sequer. Nem pararam os rituais de despedida do velho e entrada do ano novo, as promessas e as felicitações de toda a gente. Era como se a casa queimando fosse apenas mais uma atração aleatória naquele menu de entretenimento da vida real.
No alto da árvore mais alta de toda a floresta que cobria aquele litoral, uma coruja-do-mato espiava o que seria o jantar da noite, com seus olhos de Raio-X. Ao leste, um lagarto acabara de se esconder num tronco, e um pequeno roedor se esgueirava em buracos cavados num campo mais afastado a noroeste. Mas, logo à frente, um morcego dava mole boiando em cima do que parecia ser uma placa de metal, que ali brilhava aos olhos do predador como um letreiro de fast food.
Com seu voo inacreditavelmente silencioso, a coruja mergulhou no ar e se aproximou do pequeno morcego entorpecido de ácido fórmico e açúcar, agarrando-o antes de dar um impulso no carro para alçar novo voo, agora com o lanche. Foi o suficiente para o último galho que ainda sustentava aquela geometria ceder:
“CRAAAAAAAAACK”
A bomba então despencou pelo barranco, descarrilhada, varando a encosta de pedra e vegetação rala até alcançar a rampa de acesso ao condomínio, onde desceu pegando grande velocidade devido a dois pneus que ainda não tinham furado. Na primeira curva, porém, o veículo desgovernado passou reto por sobre o meio-fio, literalmente projetando-se rumo ao abismo. Para uma nave não tripulada, sua trajetória descendente foi até bastante precisa, parecia planejado. A bomba voou pelos ares numa parábola espetacular e aterrissou de cara, ou melhor, de frente, no centro da maior água do bonito telhado de estilo colonial da casa da Medéia, que àquela altura parecia ter o fogo controlado pelos bombeiros.
O resto do combustível que havia na sucata foi suficiente para fomentar uma grande explosão de fogo, do tipo que se consegue jogando álcool na brasa da churrasqueira acesa, mas em escala bem maior. Não era apenas um picolé de fogo, era a fábrica inteira. Houve correria e gritaria, choro e ranger de dentes, mas aparentemente ninguém se feriu além do morcego, e das formigas. Mas agora o samba tinha parado de tocar. Agora era rocknroll.
Deitada languidamente na cama de uma cabine da lancha, ainda nua, a coroa advogada se assustou com o intenso brilho da explosão na praia, que viu através da escotilha. Ela então se inclinou sensualmente para ver aquilo mais de perto e questionou Kitz, que fumava depois da trepada:
– São seus amigos?
– Sim. São os melhores que eu podia ter na vida.
E na casa da Medéia, que agora se desintegrava aos olhos vistos da multidão que assistia embasbacada àquele espetáculo sublime, o Babyssauro finalmente foi consumido pelas chamas. Enquanto derretia, só teve tempo para emitir um último grito distorcido de pavor existencial:
– Nooooooooo!!!!!!!!!
No cubículo do canil, Roserite agora estava sentado junto à grade, completamente relaxado, fazendo carinho no Rottweiler que era seu companheiro de cela. Em algum momento iriam retirá-lo dali. Boa aquela experiência não tinha sido. Mas pelo menos tinha feito um novo amigo.
Ao redor da fogueira, Pedro, Cris, Zoila e Babi também tinham parado a cantoria, boquiabertos, para assistir ao melhor que havia no momento. Zoila viu a bomba ali, cravada no telhado, com a traseira ainda para fora em meio a um turbilhão de chamas, como se fosse um monumento pós-moderno a tudo de mais absurdo que havia acontecido naquela semana, naquele verão, ou naquelas vidas.
Ao lado de Fabi, no local que já podiam dizer que era o deles, Martin olhou para todo aquele cenário paradisiacamente caótico, ou caoticamente paradisíaco, e então se deu conta de que a lua estranhamente já estava cheia há mais de uma semana.
E de repente se conectou profundamente com o tempo, as estrelas, e as nuvens, o vento, e tudo que estava ali e ao mesmo tempo aqui e agora, mas também lá, e sempre. Pela terceira vez antes do sol nascer, escutou atentamente aos sinais que o universo incessamente lhe dava, sem falar absolutamente nada, apenas ouvir. E todas as realidades possíveis então se entrelaçavam, e todas as possibilidades aconteciam de fato ou apenas em potencial todo o tempo, ainda que não fossem visíveis a todo ser vivente que caminha sob o sol.
Do ponto de vista privilegiado onde se encontravam, pode enxergar uma realidade em que ele e Fabi caminharam juntos por toda a estrada, encarando os desvios, bloqueios, bifurcações e encruzilhadas, até que somente um deles pudesse seguir adiante. Mas entre esses diversos percalços, havia aquelas variantes em que estavam fadados a se desencontrar e somente se achar perto do fim. Mas a estrada podia ser longa. Não havia como prever o final, nem onde a história termina.
E também havia uma realidade em que ele até tinha se civilizado, domando aquela sensação ruim de fraqueza e impotência frente a alguma ameaça humana, que na verdade era seu eu mais frágil e vulnerável, aquela linha vermelha que subia pelas costas até a cabeça, e acabava disparando o instinto de strike first, senão não conseguiria dormir à noite. E pra isso fumava tanta maconha que nunca mais tinha brigado na rua, o que lhe garantiria longos dias sobre esta terra.
E viu um futuro em que era o feliz pai de três filhos tocando o velho escritório de contabilidade fundado por seu avô, vivendo todos os dias aquela experiência extraordinária que era ser um homem comum com sua esposa comum e filhos comuns, na linha do que dizia Chesterton. E escrevia livros contando suas histórias que seus netos um dia leriam, se tivesse sorte.
Já em outras realidades tinha seguido carreira em Brasília, e acabou trocando aos poucos e involuntariamente Fabi e os amigos pela miríade de seduções da corte. Numa delas podia ter sido preso num escândalo internacional, poucos anos depois, ou simplesmente esquecido, sozinho, com uma pasta nas mãos, olhar perdido para os carros que atravessavam o Eixão da cidade em altíssima velocidade.
E em outra era um diplomata sucedido, viajando o mundo como um Don Juan sem pátria e sem família, recém divorciado de uma esposa troféu que dormia no sigilo com seus amigos, antes que ela desse para seus inimigos de forma pública. Ou então se viu como funcionário público estável cercado de nada e fantasmas numa repartição, ou produtor de novelas de TV em ambientes intoxicados pelo assédio, ou tinha sido morto aos 27, tudo emaranhado nas infinitas teias do destino, que aconteciam simultaneamente em distintas probabilidades contidas no universo do domínio ideal. A cada segundo, a maravilha da existência se desdobrava naquele contínuo de possibilidades finalmente colapsadas, em que tudo mudava para permanecer sendo o que se era realmente. O mundo do Deus onisciente de Martin. No mundo dos homens, não havia nada de novo sob o sol, como estava escrito no livro. E, no entanto, ainda assim, aqui nessa pedra, nesse grande agora, tudo poderia mudar para sempre numa fração de segundo.
Em todas essas realidades, Pedro estava (quase) sempre certo, e as coisas poucas de Filho, e Zoila sem rumo como uma pluma ao vento, e Kitz vivendo no limite, e Roserite preso num canil. E em algumas vivia todas aquelas experiências com Cris, pois já não era mais agora, e Fabi se tornava um capítulo de outra história.
E Martin viu que também era Filho, e Pedro, e Zoila, e Kitz, e Roserite. E era até mesmo Fabi, Cris, Mari, Babi, os caras da banda, os moleques que tinham ido a uma praia boa pela primeira vez na vida, o Vovô Colega de Kitz e o idoso de 31 anos, que a essa altura balançava de um lado para o outro, mordendo as costas, boquinssossi, em frente às ruínas da casa da Medéia virando cinzas. E era seu também o olho roxo de Cacá. E todas aquelas pessoas que conhecemos na verdade somos nós também, pois o que acreditamos saber delas é apenas uma pequena parte de nós mesmos. O outro, qualquer outro, seria sempre um grande mistério.
QUEM CONFIA EM FILHO, KITZ E ZOILA NÃO PERDE O SEU TEMPO.
Provavelmente não era verdade, mas certamente havia formas ainda piores de desperdiçar o tempo, de longe o bem mais precioso, fora a eternidade. Então Martin percebeu, com a mesma humildade de Roserite deitado na prancha e olhando para o tubo enorme acima de si, que poderia sim ser um personagem de livro, ou de um filme, assim como todos os seus amigos e as pessoas de forma geral. Frutos da imaginação de alguém que por sua vez também se acreditava criatura de uma entidade superior, talvez em looping eterno.
Assim como lhe disse Cris, quando estavam, e continuam estando até hoje, dando voltas e voltas no samsara: queria que o autor também gostasse dele.
E o trem passou por ali, sem ser sexta-feira.
Martin olhou para Fabi e sorriu. E se abraçaram quentinho naquela madrugada úmida.
Todas as coisas brilhando.
FIM

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