XXVII. Festa Maldita
Kitz já tinha armado o bote duas vezes, quando a coroa saiu da piscina pra ir ao banheiro, mas nas duas teve que retroceder e abortar missão devido a alguma intervenção casual do velho, dono da casa. O magnata do concreto estava lá com sua namorada oficial, uma jovem modelo em ascensão, de 23 anos, que àquela altura já dormia numa das muitas suítes do andar de cima, além de manter pelo menos mais outras cinco ou seis mulheres em situação análoga ao concubinato, seja como amigas convidadas para o Revéillon ou funcionárias, da casa ou de suas empresas: a secretária, a governanta, a faxineira. O velho comia bem, e comia de tudo, pensou Kitz. Com certeza empurrava na advogada também, repisou. Mas agora ele ia ter que dividir aquela carne.
Quando a coroa entrou no banheiro pela terceira vez, só naquela madrugada (?), Kitz a seguiu rapidamente, dessa vez sem ser visto nem interrompido por ninguém. Então ele invadiu o espaço privado já de barraca armada, pronto para o abate, apenas para ver a cena: a coroa advogada estava sentada na tampa da privada, inclinada pra trás, de pernas abertas. Aninhado entre elas, ajoelhado, o velho mandava pra dentro uma fileira de pó esticada de uma das coxas até a virilha daquela mulher deliciosamente madura.
– Desculpe. Vou usar o de cima. – Disse Kitz quando foi notado, retirando-se discretamente do banheiro.
Na festa do peyote, a banda fechou a apoteose com uma versão em português de Little Fury Things, do Dinosaur Jr. A letra, uma zoeira com as músicas de axé que bombavam na época, era de Marcelo e outro de seus amigos que também estava ali na casa, Max. Cris tinha aprendido naquele mesmo dia:
Quero ver você assim
Cheia de sol
Quero ter você pra mim
Pra sempre sol
Nosso sonho não tem fim
E é um só
Porque a vida é mesmo assim
A lua e o sol
Bem ali na praia em que eu nasci
É o lugar pra onde o teu amor vai te levar
Àquela hora, alta madrugada, o peyote já tinha batido em geral. Metade da festa foi parar na piscina de roupa e tudo, incluindo Martin. Aquela galera sim era rocknroll. Ali, agora, era um lugar do caralho com pessoas loucas e super chapadas, como tinha ouvido no início da festa, pela primeira vez, numa música do Júpiter Maçã. Na piscina, viu uma loirinha de olhos azuis e cachinhos sorrindo pra ele. Estava confiante, sorriu de volta, nadou até ela, começaram a brincar na água. Poucos minutos depois estavam se beijando.
Após o show, a festa seguiu com muito punk rock, grunge e hardcore na caixa de som. Os caras tinham um acervo de CDs impressionante. Era um baile de fim de ano, pelo menos no tema, e algumas pessoas estavam fantasiadas. Mas a maioria ali vestia preto. Mesmo as fantasias eram meio creep: um grupo de fadas góticas (por quem Martin tinha se apaixonado por todas, ao mesmo tempo), uma mago e uma feiticeira com chapéus de cone, um diabo de maiô vermelho, e sua contraparte, que usava um manto de monge beneditino e carregava para lá e cá um terço e sua bíblia. Troço blasfemo, que todos ali preferiam ver como herético.
Enquanto Zoila se esgueirava pelos cantos da festa, evitando ser visto pelo batera e seus amigos, Filho levou a sacola com as bebidas para a cozinha da casa. Lá, foi recebido muito bem por um dos anfitriões:
– Opa! Reforço no combustível!
O cara já abriu uma das garrafas de champanhe ali mesmo na mesa da cozinha, sem se importar de não estarem geladas. Ele serve um copo a Filho e ao resto dos amigos que estavam por ali, entre eles o baterista.
– Ao fato de que somos jovens, belos e felizes! – Brindou.
– Ainda! – Ressalvou o batera.
Quando guardava o resto das garrafas em um freezer, porém, o cara percebeu que algumas delas estavam sujas de areia:
– Cara, por que essas tão cheias de areia?
– Porque a gente pegou lá na praia. – Explicou Filho, honestamente, dando mais um gole no champanhe.
– Como assim, “pegou” lá na praia? Vocês não comparam isso?! – Disse o sujeito, já mudando o semblante.
– Nem precisou. Tinha um monte largado lá na areia.
– Porra, cara! Vocês pegaram bebida de macumba?! – Reagiu, já cuspindo o que bebia, e saiu dali deixando a cozinha muito puto dentro das calças. – Tu é donte, cara?
Filho nem entendeu aquela reação meio bicha. Ao seu lado, o batera também pareceu concordar que tinha sido um exagero, dando mais um gole no champanhe e erguendo um novo brinde:
– À Iemanjá, Iansã e Agogô!
Quando Martin saiu da piscina, não viu mais a loirinha, que ele pensou ter sido chamada por alguém de Ana, ou Helena. Estava muito loki pra ter certeza. Tirou a camisa para torcê-la e logo viu as meninas sendo paparicadas pelos caras da banda. Especialmente Cris, que parecia levitar. Babi, como sempre supergostosa e assertiva, não deu muito espaço para Marcelo continuar o flerte que tinha iniciado no palco quando dividiu o microfone com a irmã de Zoila. Obviamente, ele jamais refugaria àquela doce missão, e finalizaria a potranca na mesma noite. Quando Mari viu Filho na festa, fez o que prometeu: foi embora. E Filho fez o que sempre fazia nessas ocasiões: foi atrás dela.
– Eu amo Coca-Cola! – Exclamou o batera, dando um saboroso gole numa lata do refrigerante.
– Não vem com essa de novo, cara… – Rebateu o guitarrista que não era Marcelo, reclinando-se na cadeira.
Seu nome era Danilo, mas só o chamavam de Dani. Tinha conhecido Marcelo na faculdade, onde cursaram juntos uma disciplina eletiva com o controverso título de “Cinema cinema”, ministrada pelo folclórico cineasta nativo Jopi Menezes. Desde então compunham juntos e falavam em montar uma banda, que até já existia de fato, se apresentando em pocket shows como aquele. O batera se chamava Davi, e era irmão de Marcelo. Estava só dando uma força aos chapas. Não era baterista: “quero ganhar dinheiro”, disse apontando uma suposta contradição; dizia que era especialista em atabaque ameríndio, coisa que nem devia existir. Quando disseram às meninas que a banda ainda não tinha nome definido, só de zoeira, Davi provocou:
– Tem sim, a galera já batizou…
– Shh… – Interrompeu Dani, colocando o indicador à frente da boca.
Marcelo também disse que algumas meninas até já tinham cantado com eles em festinhas, mas nada sério, nada especial. Até aquele dia. O som da festa agora caprichava numa trilha sensual, para fechar a noite e receber os primeiros raios de sol com energia erótica renovada. Ao som de Time of the Season, do The Zombies, Cris já era ali, naquele momento, a Rainha da Pista do Cone Crew, uns quinze anos antes da personagem ser criada.
Kitz chegou à festa muito contrariado por ter ficado na mão, e logo achou Zoila, que parecia se esconder de alguém. O trabalho de base tinha sido bem feito, mas hoje ele tinha perdido a chance de finalizar. Achou que tava na cara do gol, mas apitaram impedimento.
– Os caras que bateram em mim e no Roseira tão aqui nessa festa… – Sussurrou Zoila.
– Aqui?! – Surpreendeu-se Kitz, antes de sugerir: – Então bora pegar eles!
– Não dá, cara. Dá uma olhada. Agora eles já são melhores amigos da Kissy e das meninas. – Apontou Zoila com o queixo.
Um enorme charuto de maconha onde tinham escrito BUG DO MILÊNIO, ameaça virtual profetizada para rolar em alguns anos, passeava pela casa. A festa agora se encaminhava para um clímax de imagens absurdas: o diabo se dava um banho com uma garrafa de cerveja gelada, gritando “eu mereço!”, o mago usava seu chapéu como um funil onde se misturava e se bebia todos os tipos de bebida que estavam sendo consumidas na festa. O monge, àquela altura, se encontrava completamente bêbado e largado em um canto, olhar perdido no horizonte, rasgando e lançando ao ar algumas páginas do seu livro sagrado. Páginas finas que serpenteavam no espaço por um momento antes de se colarem ao chão molhado de cerveja, sendo logo pisoteadas.
– Eu quero ser enterrado nesse quintal! – Gritava Max, o amigo de Marcelo, abraçado a uma garrafa vazia.
Já era de manhã quando saíram dali. Àquela hora, Cris estava dando uns beijos em Dani, da banda, que parecia ter vencido a concorrência. Martin estava feliz com aquela noite maluca. Não era sexta, mas ele conduziu os amigos até o platô aonde o trem e Fabi tinham passado em sua vida. Ficaram a maior parte da manhã em silêncio, apenas observando a paisagem. Muita coisa tinha acontecido, e precisariam de algum tempo para decantar tudo em palavras. Obviamente também havia um certo ciúme das meninas. Modo easy.
Então Zoila interrompeu aquele momento espiritual quando mostrou aos amigos alguns disquinhos prateados que tinha furtado dos caras da festa. Eram diversos CDs, a maioria gringa.
– Eu tinha de dar algum preju naqueles feladaputa.
– Mas tu tem onde ouvir isso? – Questionou Pedro.
Zoila não fazia ideia. Também não conhecia nenhuma daquelas bandas. Martin deu uma olhada, e dali só tinha escutado Dead Kennedys. Mas, como só poderia ouvir aquilo no computador, dispensou a oferta do amigo, que passou então a arremessá-los ao mar, como um frisbee, um a um.
Continua…
