XXVI. Bendita Festa

XXVI. Bendita Festa

Antes: XXV. Trabalho de Base

A festa de fim de ano na casa dos carinhas da banda iria começar meia-noite. Considerando que era uma segunda-feira, ainda que fosse antevéspera do Revéillon, o horário era bem alternativo. Cris, Babi e Mari tinham passado a tarde toda lá, nos preparativos, e também voltaram à noite para a festa antes das dez. Já eram da diretoria.

Na mansão do construtor, Kitz já tinha enjoado dos daiquiris na piscina, e só conseguia focar no momento em que iria dar o bote. O trabalho de base estava concluído. Faltava o gran finale. Não havia mais tantos hóspedes como no fim de semana. Assim que a coroa saísse da piscina e entrasse na casa, ele a seguiria para logo em seguida usar a infalível técnica da pegada do macaco.

Quando deu meia-noite, Pedro avisou Martin que seguiria à festa, mesmo sem as bebidas que Filho e Zoia tinham saído para arrumar. Cris tinha lhe dito que o pessoal da casa era cabeça. Todos moleques de faculdade, na língua de Tião Rosa. Alguns formandos, até. Não iam encrencar se avisasse que seus amigos chegariam mais tarde com a contribuição etílica.

Martin o acompanhou até a entrada da casa, onde resolveu aguardar os amigos com as bebidas. Estava tocando, aos berros, um som que ele não conhecia, mas gostou. E depois outro. Ficou curioso com aquela playlist indie. Um louro cabeludo que também estava na frente da casa, queimando uma ponta, acenou:

– E aí, irmão? Vai um tapa?

Martin aceitou. Zoila e Filho ainda não tinha dado sinal de vida.

– Só tem uma ponta, mas é skunk. Vai no sapato.

Martin meio que ignorou o alerta e deu um tapa profundo. Um gosto azedo parecido com o cheiro de água sanitária lhe tomou papilas e a garganta. Em questão de segundos, o olho pareceu esbugalhar. O segundo tapa seria muito mais respeitoso. Enquanto ouviam Keepsake, do Bettie Serveert, uma banda holandesa que Martin também não conhecia, Marcelo lhe apresentou o nome das bandas das músicas que já tinham tocado há pouco, e os dois dividiram brevemente suas preferências musicais, e outras referências, enquanto o baseado se extinguia.

– Bora, Marcelo! – Gritou alguém de dentro da casa.

– Tô indo! – Respondeu o cabeludo, antes de dar o tapa derradeiro.

– Tem muita coisa pra rolar depois da festa, porra! – Continuou a voz.

– Valeu, irmão. Gang Gajang não conheço, vou procurar. – Concluiu Marcelo, cumprimentando Martin antes de voltar à casa.

– Valeu pela kanka, brother. Coisa fina.

Martin viu no relógio que era pouco mais de meia-noite e meia. Agora tocava Here’s Come Your Man, do Pixies, que ele conhecia. Pouco depois, o som foi interrompido por um microfone sendo testado, e uns acordes aleatórios de guitarra. A banda entrou abrupta, sem anúncio. Martin reconheceu imediatamente o riff de introdução de Bitersweet, do Hoodoo Gurus, tocado com perfeição técnica. Ao vivo, ali. Quando vocal e bateria se juntaram à guitarra, que na verdade eram duas, alternando base, solo e as linhas de baixo num arranjo bem criativo, Martin lamentou ter emprestado na semana passada a fita com sua compilação de surf rock australiano para uma amiga de Pedro da escola técnica. E Bloodletting, do Concrete Blonde. Mas era gata, não tinha como negar. Que se foda as bebidas. “Vou entrar”.

Quando chegou ao amplo quintal ajardinado nos fundos da casa, onde tinha sido montado um palco improvisado ao lado de uma aconchegante piscina, Martin logo viu que seu novo amigo do skunk era quem cantava, além de tocar uma das guitarras. Dividia o front com outro guitarrista, um cabeludo que ele percebeu ser o cara que tocava as partes difíceis, além de alternar entre uma Fender raiz e um violão que devia ser bem caro. Completando o line up, um batera apenas competente, mas bem barulhento. Mesa de som, amplificador profi. A festa devia ter por volta de umas cinquenta pessoas, talvez mais. Uma galera um pouco mais velha, todos na casa dos vinte já. Mas o pessoal estava animado. Logo foi informado que um dos tipos de canapé tinha sido batizado com peyote, mas ninguém sabia qual. Martin experimentou todos que pode.

A banda emendou com covers de Harry’s Reason, do Spy v Spy, e Errol, do Australian Crawl. O outro guitarrista cabeludo agora tinha assumido os vocais que todo mundo pensa ser de James Reyne, mas que eram de Guy McDonough. A galera foi literalmente ao delírio. Martin percebeu que talvez justamente por isso o cara tinha errado uma parte do solo. Ele também, pois fez imediatamente uma careta. Mas logo retomou o controle e concluiu com precisão aquele set inacreditável, sob a perspectiva de Martin. Marcelo então voltou ao microfone e anunciou:

– Essa é nossa, galera… Get to Know.

Martin ficou de bobeira. Além de tocarem os covers que ele gostava, a música própria dos caras era sensacional. Do mesmo nível ou melhor do que tudo que ela já tinha ouvido. Parecia a mágica de encontrar um som que misturava todas as referências que ele mais gostava. Então ele quis que Fabiana estivesse ali, e finalmente se deu conta de que já não pensava nela todo o tempo. Tempo. Martin comprendeu boa parte da letra em inglês que ele escutava ali pela primeira vez, e se viu tocado especialmente pelo refrão, que dizia:

My time

I have wasted

Martin ainda não tinha dezoito, mas atribuía a cada ano daquela época, na verdade a cada precioso segundo, uma importância que nunca mais daria a outra, ou outro. Ao fim da música, absolutamente ovacionada pela plateia, Marcelo retornou ao microfone para anunciar:

– Bem, galera… Essa música que a gente vai tocar agora não tinha letra até ontem. Então eu vou chamar aqui pra cantar uma pessoa especial, que nos ajudou a escrevê-la. – Disse isso olhando na direção das meninas. Não. Disse isso olhando exatamente na direção de Cris, que sorriu e corou na hora, baixando a cabeça, sem acreditar no convite. Marcelo insistiu:

– Vem! Só vamos tocar se você cantar!

A galera nem precisou encorajar. Para surpresa de Martin, Cris foi ao palco com naturalidade, tirou o microfone do pedestal, e esperou sua deixa. Quando assumiu o lead, simplesmente entregou uma das apresentações de surf rock mais perfeitas que Martin tinha ouvido na vida, com sua voz meio rouca e vulnerável. Uma Johnette Napolitano ainda mais sexy e mais frágil. Afinadíssima, soltando uns falsetes que chegavam a apertar o coração de Martin, Pedro e de todos os que estavam ali assistindo aquela jovem musa:

When I gonna find a way

To the perfect endless wave

Sun-kissed board on ocean spray and riding higher come what may

Now I’m gonna find my way

I would never leave it

I would never see it die

All I ever need is just to feel

To justify my time

And no matter way you do

I am gonna see it through

In the moonlight stars display as dreams above me drift and sway

It will never fade away

I would never leave it

I would never see it die

All I ever need is just to feel

To justify my time

Shining sparkles from the sun

Carmine sky when ligh is done

Silent moon in full delight

Seize and feel the grand design

Quando o solo tocou, possivelmente Martin já tinha acertado o canapé do peyote, pois teve a sensação de que estava ouvindo pela primeira vez a música de sua vida naquele fim de semana, ou de toda a eternidade. E quem cantava era a menina por quem tinha sofrido nos últimos meses, com exceção dos últimos e intensos dias. Naquele momento, só queria vê-la brilhar. Tempo.

Foi quando Filho e Zoila finalmente chegaram à festa, com uma sacola cheia de garrafas de champanhe, sidra e vinho branco. Zoila teve tempo de ver que quem mandava no pedaço naquele momento era Kissy, a “tímida” Kissinha. Sorriu. Mas durou pouco. Pois logo percebeu que o batera era um dos caras que tinha lhe aplicado a surra de pé-de-pato na praia demoníaca, e que os outros da banda eram os barriga-vermelha. Os farnanga.

Continua…

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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