XXIV. O Jardim das Delícias

XXIV. O Jardim das Delícias

Antes: XXIII. Memento Mori

Martin, Filho e Pedro chegaram em casa apenas pela manhã, e dormiriam até a noite, se fosse possível. Mas Kitz tinha acabado de chegar por ali, e batia insistentemente no vidro da janela do quarto:

– Alô, Martiba! Alô!

Martin tinha o sono levíssimo, então despertou rapidamente e viu o amigo do lado de fora, gesticulando do lado de fora da janela. Era pouco mais de meio-dia. Já na varanda da casa, Kitz solicitou:

– Sem querer ser abusado de novo, meu irmão, mas você poderia me dar uma carona?

– Obviamente vai depender de pra onde. – Responde Martin, lógico.

– Não é longe, mas é um lugar onde preciso ir hoje.

– Tá. Mas é a casa de quem?

– Do meu avô.

– Avô?

– Sim, avô. Qual é, cara? Tu acha que eu sou o único que não tem parente nessa história?

O sítio do avô de Kitz ficava a pouco mais de uma hora de viagem dali, passando necessariamente por uma estradinha de terra ruim que subia a serra em direção ao interior. Para lidar com o tédio, consumiram os dois últimos cogumelos mágicos que Kitz ainda tinha, e fumaram um baseado “só pra rebater”. Quando chegaram à chácara, que continha no centro do grande terreno uma aconchegante casinha de estilo colonial, Martin teve a sensação de já ter passado por aquele lugar:

– Eu já vim aqui?

– Provavelmente. O velho tem quase cem anos. E todo ano ele faz uma festa de aniversário.

Martin então trouxe à memória o fato de que, na infância, estudou na mesma turma da escola primária que Rafael Kitz, que já era o terror da instituição. Por algum motivo, sempre lembrava do episódio em que o dono do colégio, um senhor católico italiano chamado Pascoale, veio à turma mostrar os frutos da horta comunitária que os próprios estudantes estavam tomando conta.

– Vejam isso! Vocês sabem o que é isso? – Exaltou o velho, erguendo em direção à turma um vistoso tomate vermelho retirado de uma cesta de vegetais.

– É uma jaca! – Gritou Kitz, provocando gargalhadas na turma.

Tinham oito ou nove anos à época, no máximo, o que provocou em Martin grande curiosidade sobre aquele tipo de humor bem específico do coleguinha. Depois ainda descobririam que tinham nascido na mesma maternidade, com apenas doze dias de diferença.

Kitz avançou contornando o jardim ao redor da casa, rumo à pitoresca construção que havia na parte dos fundos do terreno: uma grande estufa com estrutura de madeira pintada de branco; teto e paredes em placas de vidro. Em cima da portinhola de entrada, uma plaquinha anunciava: JARDIM DAS DELÍCIAS. Dentro do recinto, que abrigava dois corredores das mais variadas plantas exóticas distribuídas em plataformas penduradas e prateleiras nas paredes, uma neblina etérea, produzida artificialmente por vaporizadores, conferia um clima místico ao lugar. Logo à entrada, havia uma mesa de trabalho, com várias ferramentas de jardinagem espalhadas. Foi quando viram um vulto atravessando o corredor ao fundo. Ou talvez fosse onda do cogu.

– Vô?

Sem resposta. Continuaram avançando dentro da estufa, por um dos corredores, até o outro lado. Ninguém.

Kitz viu o vulto agora no outro lado da estufa. Não era o cogumelo. Tinha alguém ali:

–  Quem tá aí? – Perguntou, já se preparando para o que viesse.

– Rafael? – Respondeu a voz de um velho, meio fantasmagórica, com outra pergunta.

– Sim, vô. Sou eu. – Confirmou Kitz, enquanto caminhava de volta em direção à entrada, onde viu seu avô ocupado em recolher as sementes produzidas por uma flor havaiana.

Martin seguiu o amigo e surpreendeu-se em constatar que o avô de Kitz parecia de fato velho, mas com certeza tinha bem menos de cem anos. Novamente, seu rosto lhe era familiar. Seria lembrança da infância ou produzida pelo cogumelo? Agora o coroa raspava a camada exterior de uma das sementes com uma lixa específica, com notável precisão. Enquanto isso, uma pequena chaleira apoiada num fogão de camping começava a borbulhar. Quando o velho virou-se e viu que era Kitz, mandou:

– Ah, o Rafael burro.

– Sim, vô. Sou eu.

Martin não entendeu porra nenhuma.

– Quem é esse com você?

– Meu amigo, Martin.

– Isso eu já deduzi. Mas quem é ele?

– Um cara esquisito.

– Esquisito tipo quem?

– Tipo o Rafael.

Martin então compreendeu. Havia um outro Rafael, provavelmente primo, que devia ser o inteligente. Ou “inteligente” naquela estranha e agressiva linguagem afetiva de avô para neto. O senso de humor bizarro tinha uma explicação. O velho agora preparava com delicadeza uma infusão com as sementes em água fervente.

Argyreia nervosa. A rosa de madeira do Havaí. Você só precisa de um gole pra se conectar por horas.

– Posso provar, vô? – Salivou Kitz.

– Porra, cara. Acabamos de fumar um e comer cogumelo. – Obsequiou Martin.

– Maconha é remédio. Mas qual cogumelo vocês ingeriram? – Ponderou o vovô: – Se for um Amanita muscaria não há problema algum, mas se for um Psilocybe cubensis a combinação com Argyreia pode fazer você pode ir ao inferno e voltar três vezes!

– Era um “manitas”. – Afirmou Kitz, que não tinha a menor certeza disso. Era de fato o Rafael burro.

O avô então serviu-lhe o chá numa xícara minúscula, que parecia de brinquedo. Martin dispensou a experiência. Enquanto o velho cuidava das plantas, passaram boa parte da tarde naquela estufa falando do passado, quando os netos ainda crianças visitavam o sítio com frequência. Em determinado momento, o velho gritou em direção à casa:

– Mortágua! Traz uma coca-cola pro meu neto!

Mas ninguém veio trazer nada, e o velho deixou por isso mesmo. E falaram do tempo, e da morte. O avô de Kitz lembrou que a maior parte das pessoas que amava já tinha partido. Que o mundo em que vivia, e o futuro que se anunciava, já não lhe parecia mais tão familiar. Que sentia o tempo lhe matando aos poucos, deteriorando-lhe o corpo, mas no que parecia um paradoxo, embora não fosse, também era o tempo que podia curar qualquer coisa. Pelo menos as coisas que ainda tinham alguma chance.

– O tempo mata, mas também cura. – Decretou o velho, em tom quase profético.

Kitz então foi bem direto ao ponto:

– Vô, tem maconha?

– Sempre tenho. Tá no entoque.

– Que entoque? – Perguntou Martin.

– O Rafael burro sabe. – Disse o vovô, finalizando: – Sempre soube.

Kitz deixou escapar uma expressão de orgulho. O velho então finalizou:

– Eu sempre soube que você não ia dar em nada que prestasse… – Exaltou com satisfação o avô de Kitz, uma das mãos no ombro do neto, como se tivesse dito algo bom. Porra de jeito bosta de demonstrar contentamento, pensou Martin inicialmente, antes de se ligar. “Prestar-se a quê” era a verdadeira questão ali. Código decifrado.

Kitz deixou a estufa rapidamente em direção à varanda da casa, no que foi seguido por Martin. Havia uma pequeno gaveteiro escondido numa prateleira com plantas ornamentais. Na gaveta da esquerda, bingo. Um tevincossim verdíssimo, embalado com capricho. Kitz pegou a prensa e saiu dali muito satifeito.

Kitz deixou a estufa em direção à varanda da casa, no que foi seguido por Martin. Havia uma pequeno gaveteiro escondido numa prateleira com plantas ornamentais. Na gaveta da esquerda, bingo. Um tevincossim verdíssimo, embalado com capricho. Kitz pegou a prensa e saiu dali muito satifeito.

Na viagem de volta estavam torrando outro baseado, quando Kitz enfim desabafou:

– Meu avô morreu há mais de dez anos, cara… Eu era criança ainda. Sinto muita falta dele.

Martin não tinha tomado a tal argyreia, mas de repente se iluminou. O cogumelo, aquela névoa, os vultos. O chamado em vão. Toda aquela conversa etérea. Estavam apenas alucinando naquela tarde. Uma projeção forte. O velho era uma ideia, a personalidade presente naquele local cheio de vida. Por isso ele tinha lembrado tanto do próprio avô ali.

– Mas e o prensado, cara? Também foi viagem nossa? – Perguntou Martin.

– Que viagem, cara? A carga tá aqui comigo. Acabei de pegar com meu avô. Tu não viu?

– Hã? Ele não tá morto?!

– O quê? Tá. Claro que tá. O pai da minha mãe… Sinto maior falta daquele velho. Esse que a gente acabou de ver é pai do meu pai. Filho da puta vai viver mais uns cem anos.

Naquele momento, ainda na estufa, dando mais um golada no chá, o velho voltou a gritar em direção à casa:

– Mortágua! Vem aqui chupar meu pau!

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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