XI. God Only Knows
Antes: X. A Catumoila do Maluco
– Peguei a catumoila. – Anunciou Kitz carregando sua prancha de bodyboard embaixo do braço, quando retornou.
– A do maluco? – Questionou Filho, que era o destinário do bilhete.
– Não. Do babyssauro. – Respondeu Kitz, entregando a Filho a catumoila e o papel em que Roserite tinha escrito a mensagem colada na suíte da Medéia.
– Como assim? Roserite já tinha me dito que o maluco não tinha o tevincossim. Quem é babyssauro? – Estranhou Filho, lendo o bilhete: – Colégio? Do que o Rosera tá falando?
– Você não iria querer saber. – Concluiu Kitz, sem dar mais nenhum detalhe sobre a situação do amigo.
Enquanto isso, Zoila estava na sala, usando telefone da casa. Quando retornou, avisou Kitz:
– Falei com meu pai. Um amigo dele tem um apê vazio numa praia aqui da região… Se não tiver jeito, vamos cair lá.
– Você tava falando com o papai? Onde ele tá? – Surpreendeu-se Cris.
– Não sei. Ele não quis dizer. – Respondeu Zoila, como se fosse algo natural. Cris não conseguiu disfarçar sua reprovação.
– Porra, leque… Se eu soubesse antes que ia dar merda de novo com a Medéia podia tentar arrumar algo lá no coroa, mas se eu chegar agora vai quebrar minha corrente. – Avaliou Kitz.
– É só pra cair à noite, depois do ensaio no clube. Vamos de bomba. – Insistiu Zoila, seguindo com sua mochila para o banheiro de serviço.
– Você tá com a chave?
– Não tem chave. Tem que juntar os fios pra dar a partida.
– Puta que pariu.
– Estamos descendo. – Avisou Mari, arrastando Filho. Pareciam ter voltado às boas. Com exceção de Pedro, ninguém ali conseguia ficar chateado com ele por muito tempo.
– Tô levando a catumoila.
– Valeu. Depois do Zoila, vou pagar um pingo e a gente desce.
Pedro e Cris também ficaram na casa, conversando na varanda.
– Quase dez, e nada do Martin. Daqui a pouco vou ter que falar com o pai dele. Vai que deu alguma merda?
– Acho que não aconteceu nada ruim. Ele parecia estar curtindo aquela menina.
– E você tá com ciúme? – Brincou Pedro.
– Talvez. – Respondeu Cris, com um sorriso enigmático.
Não tinha mesmo dado nenhuma merda. O pai de Tatiana os levou para um rápido tour pelo submundo daquele pequeno balneário. Sua atual mulher e enteado só chegariam bem tarde naquele dia. O coroa era malandro. Disse que estava trabalhando como escrivão da polícia, mas Martin desconfiou. Marcos, ou melhor, Marquinho, como todo mundo por ali o conhecia, definitivamente não era hippie, muito menos caipira. Olhando-a de cima a baixo, falou que a filha tinha herdado suas pernas “de tesoura”, “que eram boas pro surf”. Que já tinha vendido sanduíche na praia, e conhecia todo mundo ali. Martin se afeiçoou naturalmente ao sujeito, que lhe parecia familiar. O adjetivo roots tinha sido feito de encomenda pra ele.
Na despedida, Marquinho apontou Martin e pela primeira vez perguntou a Fabi sobre ele:
– Vem cá, filha. O que esse cara aí é teu?
– Meu namorado. – Respondeu Fabi, sorrindo para Martin, que se surpreendeu com a resposta, mas não com a indiscrição do sujeito.
– E vocês estão ficando onde? Tão dormindo junto?!
Aquela preocupação contraditória de alguém que há uma década não participava da vida da filha divertiu Martin.
– Não, pai… Estou na casa de uma amiga.
O coroa gostou da resposta. Deu um novo abraço na filha e disse que a amava. Martin apertou sua mão e eles seguiram viagem de volta ao Montanha Russa. Ele não queria repetir fitas, então resolveu pegar uma da coleção de seu pai. Beatles não era clima. Sim, Beach Boys.
“God only knows what I’d be without you”
Paul McCartney tinha razão. Aquela era a mais linda canção de amor jamais escrita. Quando tocou Then I Kissed Her, Fabi imitou Elizabeth Shue dançando na abertura de Adventures in Babysittings, aparentemente sem perceber que no filme era a versão em voz feminina das Crystals. Estava muito feliz.
– Lembrei quem seu pai me pareceu. – Disse Martin. Fabi apenas sorriu esperando alguma piada.
– O Crocodilo Dundee. Seu pai é igualzinho ao Crocodilo Dundee.
– Acho que não vi esse filme.
– Então veja. Parece muito. E você também não parece brasileira. Parece uma australiana.
Para Martin, o sorriso de covinhas comprovava a associação. Fabi era uma pequena australiana. Uma linda australianinha. Chegaram ao Montanha Russa já se pegando no carro, quase meia-noite, e atravessaram a casa vazia aos beijos. Transaram loucamente de todas as formas possíveis na cama de baixo da beliche do quarto que Martin estava dividindo com Pedro e Filho, até o clímax, quando apagaram de cansados. Mas acordariam logo depois com um som insistente de buzinas. Martin vestiu a bermuda apressado e saiu descalço e sem camisa. Ele tinha largado o carro literalmente no meio da rua, com as portas abertas e o som ligado, mas a fita já tinha acabado.
Martin não sabia, mas quem buzinava impaciente era o síndico do condomínio, olhando feio e querendo passagem. Ele então estacionou o carro devidamente e viu o sujeito gesticulando de forma desagradável enquanto seguia adiante. Quando retornou ao quarto, Fabi já estava vestida. Martin se arrumou e acompanhou sua namorada (?) até a casa de Patrícia, que já devia estar muito preocupada.
– O que você vai fazer amanhã? – Perguntou Fabi depois que pararam de se beijar.
– Acho que vou à praia cedo.
– Mas, e antes?
– Antes do quê?
Fabi apenas sorriu. Martin entendeu o recado.
– Antes eu venho aqui te ver. Quer ir à praia comigo?
🙂

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