XII. Então Vai Lá e Se Arrebenta
Pedro e Cris já tinham voltado pra casa quando Martin retornou.
– Dia longo, hein meu irmão? – Disse Pedro, entendendo tudo quando viu Martin com uma cara de bobo.
– Foda. Depois te conto. Cadê o resto?
– Tão no clube. Tá tendo um ensaio de bateria lá. – Respondeu Cris.
– Agora aquela porra não é mais ensaio. Tá cheio pra caralho. Geral bêbado, gritando que a pipa do vovô não sobe mais.
Martin riu e ficou curioso:
– Vou lá ver isso.
Quando ele chegou ao clube, Mari e Filho estavam subindo. Fernando se surpreendeu ao ver o amigo:
– Tá vivo, Martiba?!
– Muito. Nunca estive tanto.
– Boa, moleque! Agora tu tem que ver a cara do Zoila, mané… Ele e Roseira apanharam que nem boi cachorro na praia ontem.
– Eles estão aí?
– Roserite tá na Medéia, sequelado. Zoila tá aí no clube, boladão com o filho do bicheiro.
– Hã?
– Long story. Bora entrar que eu te passo os B.O.
– Eu vou subir. – Definiu Mari, antes de perguntar ao irmão – Meu pai já chegou?
– Ainda não.
Filho deu um beijo em Mari e voltou ao clube com Martin. A descrição de Pedro era bastante precisa, mas já não estava tão cheio. Um cheiro ruim de cerveja derramada tomava o salão. Ele viu Zoila e Kitz num canto, e os quatro tiveram um tempo para rir e trocar informações.
– Babi tá saidinha… – Disse Kitz salivando enquanto olhava Bárbara rebolando na boquinha da garrafa.
– Ó… O filho o bicheiro vai te pegar. – Insistiu Filho na piada.
– Que bicheiro, cara?
– Aquele com lata de pedreiro. – Apontou Zoila com o queixo: – Mó otário.
– Tô vendo. Mas o bonde dele é grande, né. – Constatou Martin.
– Pois é. Sem chance de estrondar aqui. – Avaliou Kitz.
– Estrondar por quê, cara? Porque ele tá pegando a Babi?
– Não vou terminar a noite no prejuízo. – Afirmou Zoila.
– Então bora quebrar tudo no banheiro. – Sugeriu Kitz, gratuitamente.
– Bora! – Animou-se Filho.
– Bora. – Decidiu Zoila.
Martin estava feliz, não queria arrumar merda, mas compreendeu a necessidade de algum bode expiatório para aliviar as pressões internas no grupo. Os quatro foram ao banheiro e aguardaram o último estranho sair. Enquanto um deles vigiava a porta, os demais quebraram portas, privadas, mictórios e porta-papéis à base de chutes e pontapés. Agora sim poderiam dormir.
Filho e Martin subiram a rua lentamente, dividindo a última ponta da noite. Havia muitas gramas ainda na catumoila. Eram amigos desde os oito anos de idade, e vizinhos de rua. Costumavam falar apenas de coisas objetivas: lutas, jogos, carros, pranchas. Competitivos por natureza. Martin era o good cop, planejador cirúrgico. Filho era bad, muito bad. O cara da ação, sempre disposto a correr os riscos que desdenhava com um estalar da língua nos dentes. Não era burro, mas orgulhosamente inculto. E irresponsável, irremediavelmente irresponsável. Andavam sempre juntos, iam aos mesmos lugares, arrumavam as mesmas brigas e acabavam dividindo as mesmas namoradas. Curiosamente, quase não falavam sobre mulheres.
– Vai pro tal luau na Praia Grande amanhã? – Perguntou Martin.
– Tenho que ir. Mari intimou… E aquele paraíba quer levar ela pro VIP. Tomanocu. – Resmungou, antes de devolver:
– E você?
– Não sei. Amanhã eu vejo.
– Quer ficar no love, né malandro…
– Exatamente isso. Com a minha australiana.
– Tá certo, leque. Vai lá e se arrebenta.
Kitz e Zoila ainda tiveram de pegar estrada com a bomba. O carro estava exatamente onde deixaram, pois não havia o menor risco de furto. Antes de seguir viagem, precisaram tirar um morcego que se instalara na cabine.
A casa do amigo do pai de Guilherme ficava longe pra caralho. Não era perto da praia, nem era exatamente um apartamento. Estava mais para metade de um sobrado com telhado em meia água, no fundo de um corredor estreito, em área quase favelada. A luz estava cortada, mas pelo menos a chave estava mesmo na caixa de luz. Um lugar escroto, que mais parecia um depósito cheio de poeira, repleto de tralhas, com um banheiro desativado. A única cama no recinto, sem colchão, servia como prateleira para engradados de cerveja.
– Que merda, hein? – Riu-se Kitz.
Zoila não reclamou. Achou alguns panos numa gaveta, forrou o chão e se esticou, usando a mochila como travesseiro. Os hematomas ainda doíam bastante, mas amanhã certamente estaria melhor. Kitz acendeu mais um baseado e cogitou liberar a cama para dormir, mas desistiu quando uma barata saiu de uma garrafa vazia. A vida era uma coisa engraçada. Tinha passado o dia numa mansão de revista, tomando uísque 18 anos numa piscina espetacular, e agora estava ali, em estado de semi mendicância. Deu mais um tapa, catou mais panos na mesma gaveta para improvisar um leito e prometeu a si mesmo que seria a primeira, única e última vez que dormiria naquela espelunca.
Continua…

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