XIII. Me Dá, Se Não Vou Esculachar
Antes: XII. Então Vai Lá e Se Arrebenta
Martin acordou antes de todo mundo, engoliu algo a título de café da manhã e rumou até a casa de Patrícia. Observando pela grande janela frontal que a separava do jardim, ele aguardou por um minuto, mas não viu nem ouviu ninguém. Como ali não se aplicava o código das palmas, resolveu chamar pela namorada:
– Fabi! Fabi!
Silêncio. Quando Martin já se preparava para gritar o nome da dona da casa, uma mulher jovem que ele preconceituosamente presumiu ser a empregada apareceu à janela para comunicar:
– Tem ninguém em casa não.
Confuso, em menos de um segundo Martin tomou a decisão de não perguntar mais nada à moça, pois havia 100% de probabilidade de que a próxima resposta fosse “sei não”. Ele agradeceu e desceu direto à praia, para encontrar os amigos.
– São esses aí, ó… – Disse a senhora para os dois PMs armados que acabavam de entrar no muquifo, acordando Kitz e Zoila.
Zoila se incomodou mais com a luz repentina entrando pela porta do que com os inesperados visitantes. Kitz arregalou os olhos, como fazia sempre quando o sentido de aranha apitava, mas rapidamente se aliviou ao lembrar que não estava mais com a catumoila.
– Bom dia. – Disse um dos PMs: – Os senhores poderiam me informar o que estão fazendo aqui?
– Bom dia. – Respondeu Zoila, continuando: – Somos convidados. E os senhores? Poderiam me falar o que tão fazendo aqui?
Kitz sentiu que a conversa não iria bem por aquele caminho e tentou se adiantar:
– Desculpa, doutor… A gente só…
Foi interrompido por um tapão na cara, desferido pelo polícia, que se aproximou e intimou Zoila:
– Convidado de quem, moleque?
– Do Paulo, que é amigo do meu pai.
– Esse é o que não paga aluguel há mais de seis meses… – Interferiu a velha, que observava a tudo atenta.
Por intuição ou imaginação, o PM começou a fungar o ambiente, como se estivesse sentindo cheiro de maconha. Olhou pro colega, para a dona do imóvel e mandou:
– Me dá. Me dá, se não eu vou encontrar e vou esculachar.
Sem flagante (not é crime), Kitz tentou novamente assumir o controle da narrativa:
– Que isso, amigo. A gente não tem nada aqui.
Mas Zoila resoveu seguir por outra linha argumentativa:
– Vou te falar a verdade, senhor. A gente até tinha, mas acabou. Juro.
– Como é? – Se indgnou o PM, metendo a mão na cara já amassada de Zoila.
– Vocês vão me entregar essa maconha, ou não vão sair daqui.
Quando Martin chegou à praia do Montanha Russa, avistou de longe Filho fazendo uma mímica escrota dos movimentos de karatê conhecidos como kata, para diversão das meninas. Obviamente era a velha zoeira contra Pedro, faixa vermelha da modalidade, estilo Shotokan. Clássicos pitboys, Filho e Zoila faziam jiu-jitsu na Barra Gracie, academia Espaço Vital na Olegário, além dos treinos de porradaria com Fernando Pai, junto com toda a turma, nos fins de semana.
– Essa porra é balé.
Pedro estava acostumado, e nunca caía na pilha. Mas quando Martin se juntou ao grupo, resolveu provocar:
– Tu só zoa o miagy-san porque ainda não viu o cara fazendo flexão com nego nas costas…
Filho caiu. Começou a duvidar. Pegava pesado em academia, era forte pra caralho, fazia uns ciclos, e por isso mesmo sabia que aquela era uma proeza considerável.
– Mermão, com uma criança eu consigo. Mas se eu só apoiar minha mão nas tuas costas, tu não sobe.
– Sim, eu não subo mesmo. Mas o Pedro faz flexão com a Mari nas costas.
– Duvido!
Pedro ouvia aquelas provocações a contragosto, não gostava nada de se exibir em público.
– Então bota a Cris nas costas dele primeiro, que é mais levinha. Quero ver ele fazer! – Sugeriu Filho, dando um jeito de afastar Mari do desafio.
– Mostra pra ele, Daniel-san. – Sorriu Martin.
Meio a contragosto, Pedro tomou a posição de flexão na areia da praia e aguardou Cris sentar em suas costas. Uma. Duas. Três.
– Quer mais? – Escarneceu Martin, começando a gargalhar.
Filho estava atônito. Como assim? Ele era o único da galera a conseguir mover, mesmo que por apenas alguns milímetros, um toco enorme cortado do tronco de uma árvore, usado como mesa na praça de cima. Agora aquele frango o esculachava na flexão? Algo estava fora da ordem. Mas Martin sabia que ali não era apenas força, mas jeito e treino, muito treino. Pedro e sua turma de caratecas treinavam flexões de todas as formas possíveis e imagináveis: com punhos fechados, com uma mão só, com apenas dois dedos e… com cargas nas costas. No passado, quando Pedro e Mari tiveram seu rolo, era comum Martin encontrá-los exatamente dessa maneira, com Mari se divertindo às suas costas enquanto ele se exercitava.
Não satisfeito com o escárnio, Martin foi adiante:
– A Cris é muito levinha. Bota a Mari nas costas dele!
Filho suava sangue. Mari buscou atenuar:
– Faz com a Bárbara, que deve pesar o mesmo que eu.
Babi, que na verdade devia ser mais pesada que Mari, pois era uma cavalona gostosa, tomou o lugar de Cris. Uma, duas, três flexões, sem muito esforço. Martin não parava de rir da cara do cunhado:
– Não vai tentar fazer uma com ela não, leque?
Mari, sempre precavida, arrastou Filho para a água. Pedro bateu a areia do corpo e voltou para sua cadeira de praia. Depois que conseguiu parar de rir, Martin se questionou intimamente se não tinha pegado pesado demais com o amigo, apenas porque estava frustrado por não ter visto Fabi. Foda-se. Às vezes Filho merecia.
Os PMs revistaram carinhosamente cada centímetro do corpo, roupas e mochilas de Kitz e Zoila, sem sucesso na missão. Depois, fizeram os dois revirar toda a mixórdia daquele aposento em busca de alguma mutuca. Kitz até conseguiu achar a ponta que tinha descartado na noite anterior, mas foi suficientemente sagaz para escondê-la inicialmente com a palma da mão, e logo depois engoli-la. Perto do meio-dia, já de saco cheio daquilo, o polícia resolveu liberá-los, não sem antes perguntar:
– Aquela lata velha lá fora é de vocês? Vamos chamar um reboque agora pra levar essa carroça pro ferro-velho.
– É não senhor. – Respondeu Kitz humildemente, de cabeça baixa.
A velha os escoltou até o portão do corredor, acompanhando os PMs.
– Vocês têm cinco minutos pra sumir daqui. – Disse o polícia, antes de entrar na viatura com seu companheiro.
Quando a joaninha dobrou a esquina, os amigos embarcaram voados na bomba. Zoila juntou os fios do arranque e deu a partida. Agora Kitz tinha certeza absoluta de que tinha sido a primeira, única e última vez que ele pernoitaria ali. E ele nem precisou se esforçar pra isso.

Um comentário em “XIII. Me Dá, Se Não Vou Esculachar”