XIV. Cobra Kai Never Dies
Antes: XIII. Me Dá, Se Não Vou Esculachar
Zoila largou a bomba novamente no acostamento da estrada, um pouco antes da portaria do Montanha Russa. Como continuavam sendo oficialmente intrusos no local, desceram pelo mato até chegar à praia. Quando se juntaram ao grupo, Kitz anunciou a novidade com espírito zombeteiro:
– É, galera… Segundo despejo em dois dias. Mas dessa vez eu nem lamentei. Zoila meteu a gente na caverna do Saddam Husssein.
– Melhor vocês voltarem pra Medéia. – Brincou Martin.
– Nem fudendo. – Respondeu Zoila, repentinamente lembrando: – E Roserite?
– Não faço ideia. Deve tá lá ainda.
– A mochila dele tá lá em casa desde ontem. – Avisou Mari.
– Porra, maluco tá nem tomando banho. – Sugeriu Pedro.
– Ou de repente não tá precisando de roupa. – Disse Kitz, lembrando da última vez que viu o amigo.
Foi quando uma bola de futebol chutada de uma quadra de areia ao lado explodiu na cabeça de Zoila, que estava de costas para a pelada. A bola então quicou e parou à frente de Pedro, que a devolveu para o campo. Filho, Kitz e Martin riram pra caralho, enquanto Zoila se recuperava. Houve um pedido de desculpas, mas poucos minutos depois, a bola foi chutada novamente na direção do grupo, dessa vez espalhando garrafas de água e as bolsas das meninas. Filho pegou a bola e, à guisa de devolvê-la, deu um bicão muito forte na direção da água. Os caras ficaram muito putos.
– Foi mal aí. – Disse Filho aos peladeiros, com a maior cara-de-pau.
Após o resgate da bola, a pelada recomeçou. O jogo entre os locais estava pegado. Novamente, após uma dividida, a bola voou da quadra, dessa vez na direção de Kitz. Com agilidade, ele pegou a redonda com as mãos, e quando todos já esperavam algo pior, ele sugeriu:
– Tem de fora?
Martin achou aquela uma péssima ideia. Daquele plantel ali, só ele, Kitz e Pedro, que era um ótimo goleiro, jogavam no time do condomínio onde moravam. Zoila era no máximo esforçado. E Filho era um pereba que só sabia chutar forte e descer a porrada. Ele mesmo não era um dos mais habilidosos, como Kitz, Fitinha, Risole e outros da equipe, mas era técnico, corria bem e também descia a porrada. Como eram quatro na linha, teria de jogar todo mundo. Vai dar merda. Obviamente vai dar alguma merda.
Tiveram de esperar duas partidas para enfim entrar na quadra. O esquema ali era de dois gols ou dez minutos para acabar, o que viesse primeiro. Logo perceberam que teriam de jogar contra os reis do campo, um time que estava ganhando tudo. Martin pode avaliar: o goleiro deles era bom, mas Pedro mão-de-gato era melhor. O zagueiro era forte, jogava sério. Tinha um baixinho que corria muito, indo e vindo. E dois cabeludos, as estrelinhas do time: um tal de Dito, ou Tido, que jogava pra caralho mesmo, e um centroavante marrento que chamavam de Cacá. Acima de tudo, estavam acostumados a jogar na areia. A desvantagem era óbvia. Teriam de botar Filho na zaga, Zoila na frente, ele e Kitz correndo o campo todo.
O início do jogo confirmou a previsão de Martin, com grande sufoco nos primeiros cinco minutos. Não havia juiz, as marcações eram por consenso, e apesar do exagerado clima de rivalidade, o jogo era duro, mas leal. Zoila quase não tocava na bola, estava mais para um espectador privilegiado, com permissão para assistir às jogadas in loco. A atuação de Pedro catando tudo se destacava tanto que um dos torcedores provocou o goleiro adversário, quando este fez boa defesa em chute de Kitz:
– Aí, Xuxu! Tu é o segundo melhor goleiro em campo!
Na metade final, porém, a situação equilibrou. Os caras estavam mais cansados, e sofriam bastante com a correria imposta por Kitz, que começou a ficar confortável no psio irregular. Martin não deixou mais o Tido jogar, e ainda aparecia na frente pra fazer Xuxu trabalhar. Filho, que até então não tinha comprometido, espanando tudo, cometeu uma falta duríssima no baixinho, perto do gol. Não havia marcação de área, mas o time local em peso pediu pênalti. Martin esboçou protestar, mas Cacá já estava com a bola na mão pra cobrança, cheio de marra, esperando o goleiro se posicionar. O chute cruzado foi violento, à meia altura, à direita de Pedro. Ele acertou o canto e chegou a tocar na bola, que bateu nas duas traves e entrou. 1 x 0. Martin notou que os caras comemoraram bem mais do que nas partidas anteriores.
Logo após a saída de bola, Martin ganhou uma dividida e achou Zoila livre na frente. Ele cruzou de primeira e, por sorte dos persistentes ou competência insuspeita, deixou Kitz na cara do gol. Ele fingiu que ia chutar, driblou o goleiro e empurrou pra dentro, como era sua assinatura: 1 x 1. Não houve comemoração.
A partir daí o pau comeu. Não havia mais falta, as defesas apelavam abertamente à violência, e ambos os times recuaram já esperando a decisão por pênaltis que decidia os empates. Até que, após defender um escanteio facilmente, Pedro fez um lançamento perfeito com as mãos para o campo de ataque, onde Martin dominou a bola e tinha corredor livre até o gol. O zagueiro deles tinha subido pra tentar cabecear, e Cacá estava sozinho na cobertura. Percebendo que não chegaria a tempo, aplicou um pontapé desclassificante por trás no rival, o que fez Martin decolar em velocidade e aterrissar metros à frente, no meio do campo, ralando o peito na areia de forma humilhante.
Alguns torcedores riram. Martin respirou fundo por um segundo enquanto aquela costumeira sensação ruim lhe tomava o corpo. Levantou com cuidado e caminhou calmamente na direção de Cacá, mãos semi levantadas, de acordo com o protocolo. O cabeludo estava com um sorriso debochado no rosto, bola nos pés, provavelmente esperando a cobrança da única falta que teria de ser reconhecida pelas regras válidas naquele momento. Mas Martin agora não visava a bola. Assim que entrou na distância certa, aplicou uma série de socos diretos na cara de Cacá, alternando entre o punho direito e o esquerdo. Strike first, strike hard, no mercy.
Cacá desabou se contorcendo em posição fetal. A maioria dos socos de esquerda tinha acertado seu rosto de raspão, mas os de direita o levaram primeiro a knock-down, e depois knock-out. O resto do time rival e parte da torcida invadiram o campo dispostos a esfolar Martin, mas Filho entrou na frente de todos ameaçando:
– Ninguém vai tocar nele!
A intimidação pareceu funcionar, e a turba deu um passo atrás. Filho continuou:
– Se alguém quiser sair na porrada com o cara, vai ser no mano a mano!
Mas ninguém quis. Os seguranças do Montanha Russa também se aproximaram, para tentar conter os ânimos. Ainda transtornado, Martin foi para a água limpar a areia da cara e o do corpo. Enquanto nadava, percebeu o quanto suas reações naquele dia tinham mesmo a ver com não ter conseguido ver Fabi durante todo o dia, e nem ao menos saber onde sua namorada (?) estava.
Continua:
