XV. O Ritual
Antes: XIV. Cobra Kai Never Dies
– Caralho, Mané! Martiba moeu o moleque no soco! – Comemorou Filho, orgulhoso.
Martin não estava orgulhoso. Em casa, um pouco mais calmo, tinha avaliado que houve um certo exagero na agressão.
– Presente pra você. – Disse Zoila, lhe entregando um pequeno colar dourado.
– Porra é essa, cara?
Era de Cacá. No meio de toda a confusão, o olhar clínico de Zoila tinha identificado o cordão arrebentado na areia:
– Fica de troféu, leque. – Sugeriu Kitz.
– Quero essa porra não. – Recusou Martin, ainda irritado com tudo.
– Ele só quer a australiana dele… – Brincou Filho.
– Também vou querer uma australiana pra mim… – Suspirou Zoila, secando Babi, que a essa altura tirava a areia do biquíni em um chuveirão.
– Tu tem que querer é achar um teto pra gente dormir hoje. – Lembrou Kitz.
– Por que tu não fala com a coroa dos milhões? Certeza que ela tem espaço sobrando naquela mansão. – Pediu Zoila.
– A casa não é dela. E assim tu vai estragar o meu trabalho de base. – Avaliou Kitz: – Eu tô quase na cara do gol, leque. Não me tira daqui não.
De fato, naquele momento Martin só pensava em Fabi. Talvez um pouco nos cortes da mão direita, causados provavelmente pelos dentes de Cacá quando foram socados. Fabi não tinha aparecido na praia, nem dado qualquer sinal o dia inteiro. Qual o problema? Ele tinha conhecido a menina há dois dias. Não havia motivo para despertar o psicopata do controle que morava nele. Ou havia? Pensamentos contraditórios em rotação alucinante tomavam sua cabeça, o que lhe acontecia naturalmente, exceto quando estava fumado.
A verdade é que Martin se achava pra caralho, mas naquele momento se sentia um merda. Tinha sido uma criança precoce, aprendera a ler e escrever com três anos de idade, e acostumara-se a achar todo mundo ao redor mais burro que ele. Menos Pedro. Com o amigo travava grandes discussões filosóficas, preocupações sobre a vida e o futuro. Os dois concordavam que tudo era mais difícil para pessoas inteligentes, grupo em que se incluíam, é claro. Pedro dizia que Martin fumava maconha para ficar burro e se enturmar mais facilmente com seus outros amigos burros. Martin não discordava, mas o fato é que ele mesmo gostava mais da sua versão stoned. Se estivesse chapado, certamente não teria brigado na sorveteria, nem na praia, e muito menos destruiria banheiros.
Nos devaneios de Martin, Fabi era o oposto de tudo o que ele não gostava em si mesmo. Ele ainda não sabia muita coisa dela, mas o pouco que sabia o apaixonava ainda mais. Fabi era leve como uma brisa, naturalmente alegre e otimista. Parecia confiar nas pessoas, de forma geral. Mas também um pouco insegura. O que era normal, pensou ele. Afinal, eram apenas adolescentes. Quando conversaram sobre o futuro, ela disse que ainda não fazia ideia do que iria fazer. Não pensava em faculdade, e não parecia nem um pouco preocupada com isso. Martin também não sabia o que queria, mas fingia bem. Nem tão bem assim. Para cada universidade, tinha escolhido um curso diferente no vestibular: economia na Unicamp, arquitetura na UFRJ, relações internacionais na UnB. Agora aguardava os resultados com o coração cheio de dúvidas. Talvez quisesse ficar no Rio.
Martin até gostava do personagem que tinha criado para si mesmo, bem difícil de classificar: pegava onda, era capitão do time de futebol, melhor aluno de todas as escolas onde estudou. Mas também era meio nerd, gostava de xadrez, lia tudo o que via pela frente. Naquele mesmo ano, tinha criado um universo de RPG ultraviolento para se divertir com os amigos. Obviamente, era o mestre de jogos. Mas também era semi delinquente, só andava acompanhado pela gangue, brigava nas ruas quase toda semana. Talvez alguém tivesse informado Fabiana desse lado sombrio. Mas ela já não sabia?
– Vou lá na Medéia resgatar a Roseira. – Decidiu Kitz, o que interrompeu a autorreflexão do amigo.
– Vou com você. – Disse Martin, achando que seria uma boa se ocupar com outra coisa.
– Vai com a gente, Zoila?
– Eu quero mais é que aquela piranha se foda.
Quando chegaram à casa, a situação tinha piorado bastante. Tudo estava um nojo, com louças quebradas e comida largada. Já não havia mais tanta gente, no entanto. Kitz desconfiou que alguns quadros tinha sumido da parede, e o som não estava mais tocando. Na verdade, o equipamento de som também tinha desaparecido. Ele guiou Martin diretamente à suíte de Medéia, e torceu para que pelo menos dessa vez as pessoas estivessem vestidas.
No local, porém, encontraram uma cena de difícil compreensão imediata. Havia restos de trilhas de pó em bandejas e móveis, guimbas de cigarro e pontas de baseado espalhadas pelo chão. Uma murrinha de cachorro molhado empesteava o recinto. A prancha de bodyboard de Roserite tinha se transformado em uma espécie de altar, com diversas velas acesas e cristais espalhados por todo o quarto, alguns dentro de vasilhames com água. Esparramada na cama, a dona da casa dormia e roncava profundamente. Sentados em posição de lótus no chão do quarto, de olhos fechados ao redor da prancha, Alexandre Figueira e o velho moleque pareciam meditar, com as mãos espalmadas pra cima. Junto deles, formando um círculo, três desconhecidos, sendo que um deles aparentemente quebrava aquela corrente esotérica fumando uma pedra de crack na latinha. Kitz já tinha visto aquela pessoa antes.
Martin não entendeu nada. Roserite abriu os olhos e se animou quando viu os amigos:
– Fala moleeeeeque… – Balbuciou com a voz absolutamente arrastada, bem ao estilo de seu novo amigo.
– Bora, Rosera! – Intimou Kitz, enquanto rapidamente avaliava o local para ver se algo lhe interessava.
– Agora não dá, leque. Tamo no meio do ritual.
– Ritual de quê, cara? – Perguntou Martin.
– Pro swell entrar. – Explicou o velho de 31 anos.
Naquele momento, Kitz já tinha visto a gaveta do armário com as drogas. Ainda havia alguns papelotes de cocaína, pedras de crack, um pote com cogumelos e cartelas de ácido com o desenho do smile. E muitas catumoilas de 25 gramas, embaladas em filme plástico. Como se estivesse em um bufê, Kitz serviu-se de um pouco de tudo, enchendo os bolsos. Também viu no armário um boneco de pelúcia da Família Dinossauro, que lhe pareceu extremamente deslocado naquele cenário grotesco. Percebendo que o amigo ainda se encontrava em um estado bastante letárgico, desistiram da missão.
– Aí Rosera, disso aí que tu tomou eu quero só a metade… – Disse Kitz, se adiantando com Martin para fora da suíte.
Quando saíram do quarto, o boneco de pelúcia deu uma piscada para Roserite e sorriu, antes de se manifestar efusivamente:
– Não é a mamãe! Não é a mamãe!
Continua:

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