XIX. Uma Praia Boa

XIX. Uma Praia Boa

Antes: XVIII. Sem Conexão

Filho acordou já era quase duas da tarde. Às três, o clube abriria o salão de festas para a matinê do Montanha Russa, evento concorrido entre a juventude dourada que frequentava aquele circuito praiano. Não se vendia bebida alcóolica, e o ingresso dava direito a um coquetel de frutas (viscoso, rosa, sem álcool, com gosto de iogurte de morango) ou copo de refrigerante. Nas picapes, um DJ famosinho de rádio enfilerava os pancadões Freestyle do Miami Beat e suas infinitas versões do funk carioca.

Novamente muito disposto (aquele GH era bom), Filho saiu da sucata e estranhou ter de lutar contra o mato para abrir a porta do carro. Só então percebeu que o carro não estava estacionado. “Os filhos da puta me largaram aqui”, pensou, enquanto atravessava a vegetação para chegar à estrada. Viu a portaria do Montanha Russa e mudou rapidamente de ideia: “Os caras são parceiros”. Com certeza ainda estava com sequelas do uso de drogas. Ou talvez porque no momento só estivese pensando no que ia fazer para consertar as coisas com Mari. Tanto que nem ouviu um galho estalando forte atrás de si.

Quando chegou à casa, o pai de Martin estava aprontando para sair com a picape.

– Quer ajuda aí, tio? – Prontificou-se Filho.

Claro que sim. O coroa pediu que ele usasse a picape para buscar uns barris de chope num depósito da Praia Grande. Filho já tinha carteira de motorista, e também dirigia desde os quinze.

– Tua carteira tá no Kadett, mané. – Avisou Pedro, meio enciumado.

– Quer ir junto, irmão? – Perguntou Filho, o que surpreendeu Pedro. Aquele cogumelo da paz era realmente da paz.

– Bora. – Disse Pedro, já entrando na cabine pela parte do carona.

– Cadê o Martin?

– Chapado até agora. E depois vai acordar igual ao garoto enxaqueca.

Nisso concordaram. Não precisaram conversar muito, porque assunto em comum não tinham mesmo. Chegaram rápido ao depósito, e enquanto aguardavam atendimento, encontraram justamente os três irmãos comerciantes que tinham conhecido no luau. Os meninos estavam apurando o lucro do sábado. Pedro se interessou:

– E hoje vocês trabalham?

– Não, tio. Hoje nós vai pra praia.

– Qual praia?

– Essa aqui mesmo.

Aquela parte da Praia Grande era meio insalobra. Havia pessoas tomando banho, sim, mas o forte ali era a vida noturna. Filho se comoveu com a resposta, olhou para Pedro, para as crianças, e mandou:

– Querem ir numa praia boa?

Os irmãos se animaram. O menorzinho resolveu se arriscar, pois o não já era a resposta:

– Meus amigos podem ir também, tio?

Era mais um punhado de cinco ou seis moleques, todos entre oito e catorze anos, na mesma situação de vulnerabilidade econômica em atividade no depósito de bebidas. Pedro olhou para Filho, apreensivo. Agora já era. Mas aí foi a vez dele mesmo surpreender o não amigo:

– Podem sim. Se vai três, vai dez.

Enquanto isso, num canto bem mais abastado da mesma Praia Grande, Kitz e Zoila se esbaldavam em uma festa privada, numa casa de estilo modernoso pé na areia. Essa era a “praia” a que Lé, Nico e Ed tinham se referido. Mais uma vez, os dois exploraram sem qualquer vergonha aquele tráfico de influência caído do céu, ampliando a experimentação no cardápio inesgotável de gostosas que gravitavam ao redor dos jovens atores globais. Mas tudo começou a virar quando Kitz disse que ia mijar, e correu para um canto da praia junto às pedras, para se aliviar ali mesmo.

– Vou com você. – Disse Nico.

Kitz estranhou, mas ainda não tinha se ligado. Mijando lado ao lado, ele e o galã da novela trocaram amenidades sobre o tempo, até que, quando Kitz já tinha terminado, Nico arriscou:

– Já vai guardar?

– Como é? – A pergunta era tão descabida para Kitz, que ele a priori sinceramente não compreendeu a dicção do interlocutor.

Nico apenas sorriu, fechou as calças e voltou para a festa. No resto da tarde, Kitz já não conseguiria se divertir tanto naquele local.

Quando Filho e Pedro chegaram ao Montanha Russa, a comitiva juvenil apinhada na caçamba chamou mais a atenção dos seguranças que a respeitável carga de quatro barris de chope. A picape foi barrada na portaria, e o síndico foi chamado. Durante muitos minutos, o desagradável sujeito tentou convencê-los de que os moleques não poderiam entrar por serem menores, não porque eram na média bem mais escuros que os frequentadores habituais do condomínio. Sem sucesso. Pedro insistia:

– Se não estiver nas regras escritas do condomínio, você não pode barrá-los. Me mostra a regra.

– Só podem entrar se forem convidados de algum maior residente ou inquilino de casa no condomínio.

– Já disse que são meus convidados. Sou de maior, amigo. – Explicou Filho, nos seus termos.

– Você é convidado de inquilino, já expliquei. E você nem deve conhecer esses moleques. Faça-me o favor!

– Conheço sim. Diz seus nomes aí, rapaziada: – Pediu Filho.

“Jorge”, “Erik”, “Jonas”, o jogral continuou até a contagem de dez cabeças (haviam dois eriks), quando Filho insistiu:

– São todos meu convidados. São meus amigos.

O bate-boca durou somente até a chegada do pai de Martin, que também era um coroa meio sinistro. Não praticava nenhuma arte marcial, mas só andava armado. Bigode, óculos escuros, 765 na pochete, corrente de ouro no pescoço, tinha a maior cara de polícia, mas era contador. Mesmo casado com a mãe de Babi, tinha várias amantes, sem sapatinho. E uma outra família, inclusive. Esculachou o síndico sem piedade. Se era convidado de Filho, era seu convidado, resumiu.

Filho e Pedro desceram com os moleques de picape até a praia particular do Montanha Russa, que pareceu cenário de um conto de fadas aos olhos dos novos visitantes. Para certo desconforto de alguns locais, aquela tarde agradável na praia teria de ser dividida com a alegria desprovida de etiqueta daqueles jovens ambulantes. Mas a isso os moleques já estavam acostumados.

Continua:

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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