XX. Matinê Super Bombada!

XX. Matinê Super Bombada!

Antes: XIX. Uma Praia Boa

Martin acordou bem depois das quatro, quando as meninas já tinham descido pro clube. Camarote. Modo easy. Pedro e Filho apareceram por volta das cinco e meia, junto com sua comitiva, voltando da praia. Martin nem se deu ao trabalho de perguntar o que era aquilo, mas podia imaginar. O mais estranho era os amigos em bom termo.

Enquanto Filho levava a molecada de volta para a Praia Grande na picape, Martin desabafou com o amigo:

– Acho que estraguei todo o meu trabalho de base, como diz o Kitz.

– Viajar com ela sem avisar à mãe não deve ter ajudado em nada.

O garoto enxaqueca respondeu:

– Se for pra tripudiar das merdas que eu já sei que fiz, melhor tu ficar calado.

– Tá pensando com a cabeça de baixo, meu amigo.

– Tô pensando no que fazer agora.

– Já cogitou o fato da mãe dela ter um bom motivo pra afastar o cara da filha?

– Cala a boca, porra. Eu nem sei se afastou.

– O cara podia ser perigoso, um agress…

– Porra, mermão! Assim não tá ajudando!

Pedro entrou pra tomar um banho e Martin rumou a pé para o clube. Os dois nem viram quando a picape do galã global passou em frente à casa onde estavam, com Zoila e Kitz, ainda meio bolado, a bordo.

Na mansão em frente à praia que logo perceberam ser de Ed, um dos atores, o menos conhecido dos três, Kitz puxou Zoila para um canto e tentou alertar o amigo:

– Aí, mermão… Acho que esse caras são viado.

– Como assim, leque? – Reagiu Zoila: – Tu tá vendo eles pegando geral com a gente… E ainda ofereceram um quarto pra gente cair aqui.

– O problema é se eles quiserem algo em troca… – Maldou Kitz: – Tu já reparou que eles só beijam, mas não finalizam ninguém? Estranho pra caralho.

– Acho que tu tá viajando.

– Fix, tchola, agasalham o croquete. – Zombeteou Kitz.

Zoila ouviu, mas não escutou. Com a desculpa de pegar mais uma prensa de maconha, pois as catumoilas de Kitz finalmente haviam acabado, acompanhou Léo até a suíte de cima. Quando entraram no quarto, o galã da vez trancou a porta, guardou a chave no bolso da calça jeans da Ellus e salivou:

– Agora é só nos dois, garotão…

– O quê?! – Zoila nunca exclamava, mas ali ele gritou.

– Me deixa só dar uma chupadinha.

– MERMÃO. ME DÁ ESSA CHAVE AGORA SE NÃO EU VOU TE ENCHER DE PORRADA.- Falou sério, alto, em tom ameaçador. Intimidado, Léo tirou a chave do bolso e abriu a porta. Zoila então atravessou a sala como um raio e deu o ultimato para Kitz:

– Bora dessa merda, Kitz. Só tem fix nessa porra.

Quando Martin chegou ao clube, já com sol posto, a matinê estava bombando de cheia. DJ Romero tocava The Promise, do When in Rome. Mesmo que encontrasse Fabi ali, e ele não tinha motivo algum pra ter alguma esperança nisso, ainda estava pensando nas palavras certas para dizer a ela. Só tinha certeza de que, se ela precisasse de um amigo, se estivesse com dúvidas, ou em perigo, ele queria estar lá com ela. Logo achou Pedro com Cris, que tinha aberto mão do camarote. Durante uma meia hora, os três se divertiram dançando uma sequência de europop chiclete. Quando rolou Crazy for You, do Sect, que não era europeu, Martin teve flashbacks de seu romance com Cris, no ano passado, quando os dois disseram que eram loucos um pelo outro. Pouco tempo depois, no entanto, a irmã de Zoila diria que ainda o amava, mas que seguiria seu próprio caminho. E ela ali, gingando sensualmente com um micro vestidinho floral de verão, marquinhas de biquíni no torso aparente, continuava linda do mesmo jeito.

O síndico do condomínio de vez em quando tomava o microfone para dar recados que ninguém queria ouvir. Meio escondido num canto escuro, Cacá tinha um olho roxo e alguns pontos na boca. Martin se ligou e lembrou que seus próprios dedos ainda estavam fodidos. Ele então avaliou rapidamente que estava em minoria absoluta e podia levar um prejuízo ali. Mas o rival não parecia interessado em uma revanche. Devia ser mesmo um cuzão. Como Fabi namorou esse merda? Kitz e Zoila logo apareceram, mas compreensivelmente não deram muitos detalhes do que havia acontecido com os globais. Filho chegou já era noite. Como Mari não estava falando com ele desde o sábado, sentiu-se livre para participar da roda de briga que se formou no salão quando o DJ soltou os pancadões. De um lado, a turma local de que Martin não gostava gritava:

“Uh! Haha! É o Montanha Russa!”

Do outro, os haoles naquele contexto, visitantes que tinham se deslocado da Praia Grande e outros balneários próximos:

“Ê! Ô! A Praia é o terror!

Devidamente paramentado com uma camiseta autorizada de sua academia de jiu-jitsu, Filho logo aliou-se a um colega de tatame, faixa roxa encardido, na linha de frente da galera da praia. A briga estancava aqui e ali, por no máximo cinco segundos, e os seguranças do clube apenas separavam os mais insistentes. Tudo isso na mais perfeita normalidade. Também era normal que, para amenizar as coisas, DJ Romero mandasse sua playlist de pedradas hot. Naqueles momentos, que costumavam ser o clímax da matinê, músicas como Push It, do Salt n’ Pepa, embalavam jovens suados exibindo a pele seminua e bronzeada em movimentos sensuais, feromônios explodindo por todos os poros. Tudo normal.

Não acontecia em todo domingo, mas naquele o DJ resolveu meter uma hora do rock, tocando coisas como Private Idaho, do The B-52, Dancing with Myself, de Billy Idol, e Middle of the Road, do Pretenders. Quando rolou Smell Like Teen Spirit, do Nirvana, Kitz levantou a camiseta e revelou que tinha uma malvina na cintura. Uma bomba usada em fogos de artifício, especialmente balões, que ele tinha arranjado com o pai de Zoila. Martin pensou alto:

– Me dá essa porra aqui. Bora ver se nego é rocknroll mesmo.

Ele então mascou rapidamente um chiclete, e improvisou um pavio enrolando um papel de guardanapo. Avaliou rapidamente o salão, algum lugar onde a bomba poderia explodir sem machucar ninguém.

– Eu planto e tu detona. – Coordenou com Filho.

Logo Martin se dirigiu a um canto perto da entrada do salão, onde havia um sofá em formato de L com uma mesa de centro. Perfeito. Vazio. Kurt Cobain esgoelava quando Martin colou discretamente a malvina na mesinha, com a goma do chiclete, por baixo do tampo. Imperceptível. Quando já estava se levantando para sair, no entanto, uma menina se sentou no sofá, à média distância de onde estava, mas sorriu para ele. Que merda. Filho já estava em modo missão, caminhando firme para o local da operação. Agora era Michael Stipe que cantava The One I Love, do REM, a plenos pulmões.

Martin sorriu de volta para a loirinha e saiu dali, observando atentamente os passos de Filho, que passou por ele e se sentou exatamente no mesmo lugar onde o amigo estava. Não demorou muito, ele pegou um isqueiro e acendeu um Gudang Garang, o que era permitido inclusive para menores, e em ambientes fechados. Normal. Filho não pareceu muito preocupado com a companhia, também sorriu para a loirinha, e logo esticou-se para acender o pavio improvisado. Com o isqueiro aceso, ele insistiu por segundos desnecessários até ter certeza de que o fogo não se apagaria. Como não havia cera, a chama ficou gigantesca em baixo da mesa de centro, e Martin se preocupou. Filho vazou dali rapidamente, em direção ao salão, onde estava o resto do grupo. Martin não conseguia parar de olhar para o fogaréu.

“This one goes out to the one I love…”

A loirinha percebeu o que iria acontecer e colocou as mãos nos ouvidos, esperando a explosão. Martin se alertou.

“FIIIIIIREEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!!!!!!!!!”

BUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUM

A malvina estourou fazendo um barulho absurdo, encobrindo a música que já estava alta pra caralho. Houve gritaria, alguma correria, um princípio de pânico, mas logo todas as luzes foram acesas, a música interrompida, e não havia feridos. Apenas uma mesa de canto destruída. Mas agora ninguém tinha achado aquilo normal. O síndico pegou o microfone e vociferou:

– Que merda é essa!? Vocês tão achando que é festa junina!? Acabou a matinê! Acabou! Vai todo mundo pra casa!

Eles não eram rocknroll.

Continua: XXI. Motoquinha frio negro

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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