XVIII. Sem Conexão
O pai de Zoila parecia ter alguma influência sobre os salva-vidas, pois os ânimos logo esfriaram. Kitz continuava preocupadíssimo que tivessem encontrado o saquinho com a carga, naquele momento dentro de uma de suas meias, por sua vez amassada no interior do tênis. Fingiu algum pudor e meteu apressadamente suas roupas, pé esquerdo amassado no tênis, dividindo espaço com a carga e a meia.
– Bota uma roupa, filho. – Pediu o coroa, dando um trago em seu Marlboro vermelho.
Zoila se vestiu normalmente, sem pressa nem preguiça, e perguntou:
– Por que tu não avisou que vinha pra cá?
– Eu não viria. Mas mudei de planos. E a Kissy, tá com você?
– Já foi pra casa.
O pai de Zoila estava acompanhado de uns amigos bem estranhos, com cara de que formavam um grupo paramilitar ou milícia. Ou talvez fossem apenas vagabundos vocacionados, como ele. Já recompostos, acordaram Filho, que se levantou com garbo e energia como em todas as manhãs, como se nada daquilo tivesse acontecido. Devia ser coisa dos hormônios que tomava a mais. Um dos amigos do pai de Zoila cheirava sem parar, e gostava de ostentar sua preferência:
– Gosto muito! – Exclamava a cada fungada na colherzinha do pote de rapé onde guardava a neve.
Munido dos papelotes da Medéia, Kitz desafiou, já esticando uma série de filas no capô do carro de um deles:
– Então tu gosta de cheirar, mermão? Pra cada uma que tu botar, eu vou mandar duas.
O cara assustou. Ainda assim, meio reticente, conferiu a primeira carreira com a ajuda de um canudinho. Saiu da experiência mordendo as costas. A fonte da Medéia era primeira classe. Kitz se aproximou das linhas, e sem canudo, só na habilidade da aspiração com um dos dedos tapando a outra narina, fez desintegrar em sequência não só as duas outras carreiras, mas também o resto do pó deixado pelo amigo de seu pai. Sua resistência para esse tipo de coisa era lendária. Com os olhos esbugalhados, tranquilizou Zoila quando ele lhe perguntou como estava:
– Tô boquinssossi. Bora beber algo.
Passaram a manhã bebendo, fumando, cheirando e comendo aperitivos num quiosque da praia, rindo das histórias bizarras e ou sinistras que o coroa contava, e que faziam as peripécias de Kitz e Zoila parecer ingenuamente infantis. No fim da manhã, o pai de Zoila os convidou para passar a noite com ele em um motel/bordel da região, alguns quilômetros estrada adiante, pouco depois do Montanha Russa. Ele conhecia a dona, disse pelo menos três vezes. Zoila ofereceu carona ao pai, mas não avisou que seria na bomba. Quando o coroa viu o estado do carro, se amarrou. Bem, todos tinham acabado de comer um cogumelo e tomar um ácido, cada. Na estrada, vieram cometendo todo o tipo de atrocidade imbecil, tal como jogar copos de plástico cheios de mijo em passantes desavisados, ou chutar lixeiras. Naquele momento bizarro, pai e filho pareciam enfim conectados.
Quando já estavam a poucas curvas do Montanha Russa, no entanto, Zoila começou a ver mais coisas do que os outros. Talvez fosse as drogas ou os golpes sucessivos na cabeça. Provavelmente tudo junto. Numa curva para a direita, guinou o carro bruscamente, quase batendo na montanha, rodas subindo o acostamento ruidosamente. Seu pai, que estava no banco do carona, pés levantados no painel, gritou:
– Caralho, Guilherme!
– Você não viu? – Disse Zoila, calmamente.
– Viu o quê, porra?! – Exclamou seu pai, ficando imediatamente de cara.
– A mulher de branco.
– Que mulher de branco? Não tinha nada ali, caralho!
No banco de trás do carro, Kitz apenas assistia à conversa surreal, transtornado. Filho dormia novamente, tranquila e inexplicavelmente. Zoila seguiu adiante, convicto. Mas quando chegaram à entrada do Montanha Russa, viu novamente a mulher de branco e guinou a bomba abruptamente para a esquerda, na direção do mato, pouco antes da portaria. O carro estourou tudo que o mantinha ainda útil quando subiu o acostamento na diagonal, num acidente espetacular, sendo parado pela vegetação nativa da encosta.
Quando Zoila, seu pai e Kitz saíram da bomba, que agora não passava de um cartucho queimado, um dos vigias do condomínio até foi ao local para ver o que tinha contecido, mas logo voltou ao posto quando soube não haver feridos. Filho continuava no carro, roncando.
– A primeira coisa a fazer agora é deixar toda a carga comigo. – Pontuou o pai de Zoila.
Kitz estranhou o papo. Ainda tinha bastante coisa do espólio da Medéia. Nem fudendo iria entregar o ouro. Mas ele não precisou fazer nada, pois Zoila se adiantou:
– A gente não vai te dar nada.
O pai de Zoila se contrariou, e a conexão repentinamente se quebrou.
– Vocês que sabem. Então melhor largar esse carro. Se a polícia chegar, vocês vão ter problemas. – Deu a ideia, se adiantando a pé na estrada. O motel ficava a menos de dois quilômetros dali.
Ao sol do meio dia, Kitz e Zoila agora se encontravam-se literalmente a pé na beira da estrada. Drogados, desabrigados, com as mochilas dentro de uma sucata. Mas o destino tinha outros planos. Saindo do Montanha Russa, Léo dirigia uma picape. No veículo, estralando de novo, também estavam Ed e Nico.
– O que houve, cara? – Perguntou Léo.
Kitz já tinha a história:
– A gente tá na casa de um parceiro aqui no Montanha Russa. Mas ele saiu e acabou deixando a gente trancado do lado de fora.
– Pô, que coincidência… A gente também tá aqui nesse condomínio. Topam uma praia?
– Claro! – Adiantou-se Kitz, já prevendo os biquínis espetaculares que veria, enquanto subia na caçamba.
Zoila subiu em seguida, sem alarde. Quando passaram em frente à saída para a Praia Grande, os galãs da TV avistaram uma pichação recente na parede concretada de uma obra de contenção da encosta. Uma velha pintura desgastada, em letras de imprensa, tinha sido blasfemada: QUEM CONFIA EM JESUS NÃO PERDE O SEU TEMPO. O nome do Nazareno estava riscado com um X. Ao redor, traçado com a mesma tinta, liam-se os nomes de FILHO, KITZ E ZOILA.
Continua…

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