XVI. Tira essa camisa
O Luau na Praia Grande, a maior e mais desenvolvida daquela região oceânica, era patrocinado pela M2000, uma marca de tênis. Uma estrutura havia sido montada para dar palco a um punhado de apresentações ruins de bandas de Axé. O evento era gratuito, mas havia um cercadinho na areia separando a área VIP, onde artistas, patrocinadores e convidados poderiam se servir de drinques, quitutes, água de coco e canapés, além de assistir aos show no gargarejo, em amplo e confortável espaço.
Na classe econômica, a conversa era outra. Uma verdadeira multidão se aglomerava na areia e no calçadão. Como um enorme engarrafamento tomava as ruas do local, tiveram de deixar os carros muito longe, perto da estrada, o que já irritou Martin. Odiava aquele tipo de programa. Odiava ainda mais porque tinha combinado de ir com Fabi, mas ela tinha sumido. Além disso, ele logo percebeu que a gratuidade tinha atraído ampla vagabundagem, todos querendo se dar bem naquele verão, de alguma forma, não necessariamente lícita. Cris e Babi já tinham devidamente se arranjado no camarote do filho do bicheiro, o que despertou a inveja de Kitz:
– Porra, leque… Temos que arrumar uma pulserinha daquela. – Salivou Kitz, referindo-se ao apetrecho que dava acesso ao cercadinho.
– E as australianas tão todas lá dentro… Aqui fora tá só a paraibagem.
Resolveram parar no calçadão, ao lado do isopor de uns moleques que vendiam cerveja na rua. Três irmãos, crianças ainda, o mais velho com treze anos. Filho logo fez amizade com os jovens trabalhadores. Era uma de suas qualidades: sempre se dava bem com crianças, animais e velhos. Mas, após duas ou três cervejas, começou a ficar bolado com um cabeludo que passava por ali, indo e vindo, usando uma camiseta em que se via o logotipo da academia Barra Gracie:
– Nunca vi aquele cara lá na academia. Conhece ele, Zoila?
O colega de tatame acenou com a cabeça, negativamente. Pedro estranhou:
– E daí? Só por isso ele não pode usar a camisa?
Filho não respondeu. Martin conhecia aquela espécie de código torto das academias de arte marciais do Rio de Janeiro na época, mas também ficou calado, pois não era algo racional. Seu cunhado já estava já obcecado com o sujeito, encarando-o sem parar, e ao mesmo tempo provavelmente interpretando que era o outro que o encarava. Mari resolveu se antecipar:
– Se você arrumar briga aqui, eu vou pra área VIP com as meninas.
Filho ouviu mas não escutou. Martin se preocupou, pois o cabeludo estava cercado de gente. Antes que pudesse falar qualquer coisa, o amigo caminhou na direção do suposto desafeto e mandou:
– Tu treina onde, mermão?
Pego absolutamente de surpresa pela iniciativa destemperada, o cabeludo, que já devia estar na casa dos vinte, vacilou na resposta:
– Qual foi, irmão…
– Treina onde?
– Não tô treinando, mas conheço todo mundo lá. Só perguntar do Ninja.
– Conhece quem?
– Draculino, parrumpinha…
– Conhece porra nenhuma. Tira essa camisa.
O rosto do cabeludo se contraiu involuntariamente frente à ameaça. Àquela altura, já havia se formado uma espécie de roda ao redor dos dois, entre amigos de ambos e curiosos. Antes que a discussão alcançasse o ponto de ignição, no entanto, um cara grande, meio bêbado, carregando no alto duas cadeiras de ferro do tipo dobrável, daquelas com uma marca de cerveja, acertou em cheio a cabeça de Zoila, que acompanhava a treta de perto.
– Sai da frente! Sai da frente!
Pé-de-pato, bola de futebol, agora cadeira. Foi demais. Num impulso, Zoila pegou a primeira cadeira de ferro que viu, desocupada numa das mesas ao redor, e desferiu uma cadeirada doída no sujeito, por trás. O bêbado gritou de dor, caindo por cima de outra mesa, derrubando copos e garrafas. Mas não desmaiou. Levantou como um monstro desgovernado, disposto a agredir quem estivesse na frente. Os caras da mesa obviamente não gostaram, e tomaram partido. Uma confusão generalizada se formou, provocando correria e um enorme clarão na área. Quando Filho se deu conta, Ninja e os amigos já tinham vazado dali. Zoila também, e apenas desconhecidos brigavam. Mas foi aí que ele percebeu que Mari já não estava mais com eles. Mais à frente, na entrada da área VIP, um segurança acabava de liberar a entrada de sua namorada, por orientação do filho do bicheiro, que parecia mandar muito ali.
– Porra, Zoila! Vai se foder! Uma hora tu vai arrumar uma merda séria! – Gritou Pedro, muito puto, quando se reagruparam. E continuou ralhando: – E o outro imbecil querendo brigar por causa de camisa! Vão se foder vocês! Eu vou embora dessa merda!
Tal como prometido, Pedro saiu dali em direção à areia, perdendo-se no meio da multidão. Martin sabia que não havia nada o que pudesse fazer, pois o amigo era determinado. Mas talvez o certo era segui-lo. Talvez. Sem o grilo falante, nem as meninas, aquela noite podia terminar em tragédia. E onde estaria Fabi? Queria poder ter aquela sensação de pensar vê-la no meio da multidão, mesmo que fosse um alarme falso. Nem isso. Mas viu Patrícia. O que ela estava fazendo ali? Fabiana estava com ela? De repente, a ideia de que Fabiana pudesse estar no luau não lhe pareceu nada agradável.
– Oi, Patrícia. A Fabiana tá contigo?
– Não. Ela voltou pro Rio. – Respondeu secamente.
– Aconteceu alguma coisa?
– Não sei, ué. Liga pra ela.
Foi quando Martin se deu conta de que não tinha o seu número de telefone. E nem seu endereço. Embaraçado, ficou ali plantado como se esperasse que Patrícia lhe dissesse o que fazer. Após um silêncio constrangedor, ela explanou:
– O que voce quer, garoto? Você praticamente sequestrou ela um dia inteiro, sem avisar ninguém. E ainda a levou prum fim de mundo, ela podia tá correndo perigo. Você é maluco?
Talvez fosse mesmo, porque de resto Martin só ouviu verdades. Sem replicar, pensou apenas em se desculpar, mas só engoliu em seco. E Patrícia ainda concluiu com o morango da sobremesa:
– E sabe o menino que você espancou? É o ex-namorado dela.
Disse isso e se virou para o grupo de amigas, dando as costas para Martin, que ficou ali sozinho, embora estivesse literalmente no meio de uma multidão.

2 comentários sobre “XVI. Tira essa camisa”