XVII. Balança a Pemba

XVII. Balança a Pemba

Antes: XVI. Tira essa camisa

– Só tem mocréia nessa porra! – Revoltou-se Kitz, cujo sarrafo costumava ser baixo.

No palco do evento, uma banda baiana estava mandando um cover de Swing da Cor, de Daniela Mercury, quando o vocalista convidou Babi e outras meninas que estavam no VIP para dançar com ele.

– Só aqui na pipoca. – Constatou Zoila.

Para lidar com a frustração, os quatro amigos começaram a beber vigorosamente. E de vez em quando iam à beira-mar, para outros consumos. Martin só fumava, jamais tinha experimentado e nem experimentaria qualquer substância química manufaturada ilegalmente por pessoas desqualificadas em algum laboratório clandestino. Mas Filho, Zoila e Kitz gostavam de tudo. Especialmente o último, que naquele momento tinha em seu poder uma grande variedade de substâncias entorpecentes subtraídas da casa da Medéia.

Devido à contínua elevação do nível alcóolico dos frequentadores do evento, o clima no local ficava cada vez mais perigoso, além da sujeira e do fedor que começava a dominar o ambiente, especialmente na área desprivilegiada. Uma tensão social acabou se instalando quando alguns moleques começaram a pular o cercado para tentar consumir algum petisco da farta ceia disposta em uma mesa enorme. Com muita rapidez, no entanto, eram devidamente interceptados e conduzidos pelos seguranças para fora dali. Mas uns playboys da área VIP acharam engraçado revidar, e começaram a atirar cocos na direção dos invasores, que continuavam aglomerados na areia, esperando uma nova oportunidade de reiniciar o assalto.

Alheia a tudo aquilo, a banda agora tocava Chorando se Foi, do Kaoma. Na verdade, era uma versão de uma música do obscuro grupo boliviano Los Kjarkas, mas ninguém sabia disso. Babi continuava dando seu show sensual na ribalta, mas agora Mari estava com ela. Literalmente dançando lambada com um dos integrantes da percussão.

Filho ficou maluco. Quando viu aquilo, saiu em disparada rumo à area VIP, que dava acesso ao palco. Os amigos seguiram-no, já antecipando o pior. Com agilidade supreendente para quem já estava bem bêbado, Filho saltou a cerca e não seguiu em direção à mesa de comida, mas ao palco. Os seguranças se reuniram em peso para contê-lo, o que não foi simples. Enquanto isso, aproveitando a deixa, cada vez mais pivetes invadiram a área, e cada vez mais cocos voavam em sua direção. E um dos cocos acertou quem? Zoila, claro.

A cocada abriu uma ferida em sua cabeça, que logo começou a melar.

– Emergência! Ajudem aqui! – Gritou Kitz, chamando a atenção dos seguranças. Um deles se impressionou com toda aquela sangueira e abriu a cerca para que Zoila pudesse receber algum atendimento.

– Eu tô com ele! – Alertou Kitz, já entrando no VIP, sem a menor disposição de deixar aquele recinto.

Enquanto Filho era retirado à força da área nobre, Zoila e Kitz foram levados ao backstage, onde uma pessoa que não estava bêbada pode limpar o ferimento e aplicar gelo no local. Apesar da aparência feia, felizmente não era nada grave. Enquanto estavam por ali, Kitz logo percebeu que o ambiente era movimentado: músicos, playboys, artistas, e mulheres, lindas mulheres, circulavam de um lado para o outro, animados por um cheirinho que ele logo reconheceu como o de lança-perfume. Uma das celebridades presentes, jovem galã de uma novela das oito, pareceu se preocupar com o ocorrido:

– Nossa, meu irmão! Foi briga?

– Foi. Um daqueles favelados acertou meu amigo com um coco. – Respondeu Kitz, invertendo a situação.

– Mas tá tudo bem?

– Agora tá. Valeu, irmão.

– Vocês querem alguma ajuda?

Kitz não precisou de um segundo para elaborar sua estratégia:

– Não, tá tranquilo. Mas se alguém tiver um remédio pra dor de cabeça pro meu amigo, eu agradeço.

– Então vem comigo.

Zoila não estava com “dor de cabeça”, mas logo entendeu a maldade. O que doía era o local da pancada, nada mais. Pouco tempo depois, os dois já estavam completamente enturmados com a trupe do ator, que fazia presença no evento junto com outros famosinhos, numa mesa recheada de gostosas.

– Puta que pariu, leque. Me belisca que eu tô sonhando. – Murmurou Zoila, que já não sentia mais dor alguma.

Do lado de fora, Filho e Martin se viram então condenados à muvuca. Quanto mais Mari dançava, mais seu namorado bebia, forçado a um sentimento de impotência que era absolutamente inaceitável para ele. Seja por solidariedade ou por estar vivendo um tipo parecido de miséria afetiva, Martin acompanhou fielmente o amigo. Raramente bebia, mas quando bebia, virava outra pessoa que bebia pra caralho. Em pouco tempo, já de caveira cheia, circulavam pela área dando cantadas em mulheres feias e xingando as que os recusavam. Já de madrugada, quando os shows se encerraram, Filho sentou-se no pára-choque de um fusca e vomitou tudo o que tinha comido e bebido no dia. Ao lado dali, completamente alucinado, Martin se deitou na areia e apagou. Filho não durou muito mais, e caiu sentado dormindo ao lado do vômito.

Já na área VIP, Cris não entendeu nada quando viu Kitz e Zoila na mesa dos globais, cada um aos beijos com uma australiana cavalona. Completamente à vontade com a nova situação, os dois bebiam, riam e esticavam carreiras de pó compartilhadas com seus novos amigos, que pareciam encantados com toda aquela simpatia.

Quando o sol já começava a aparecer no horizonte, Martin acordou. Estava sem o relógio, a carteira e a chave do carro. “Filhos da puta. Me roubaram”, pensou ele. Olhou para o lado e viu Filho na mesma situação, depenado. Sentindo uma dor de cabeça horrível, caminhou até a entrada da área VIP para ver se encontrava Mari. Mas achou foi Pedro:

– Toma. Peguei de vocês pra nego não roubar. – Disse o amigo, devolvendo-lhe os pertences. – As coisas do babaca estão no carro, que eu já trouxe aqui pra perto. Agora tem vaga.

– Fica com a chave, meu irmão. Sem condição de dirigir.

Salve Pedro. Não tiveram de esperar muito pelas meninas. Quando Kitz e Zoila saíram junto do séquito de estrelas, despedindo-se dos galãs de novela, Martin ficou estarrecido.

– Caralho, meu irmão. O que foi isso?

– Conhecemos hoje. É o Nico, Léo e o Ed.

– Eu sei quem são, porra. Mas o que houve?

– Long story. Depois a gente conta. – Disse Kitz, com um sorriso no rosto.

Quando reanimaram Filho para entrar no carro e finalmente irem embora, ele viu Mari e reagiu, ainda grogue, com a fala embolada:

– Eu vou com os caras!

Pedro achou ótimo. Tinham vindo apertados no Kadett na ida, e quanto menos bêbados fedorentos no carro, melhor. Martin ainda tentou convencer o amigo, que estava em estado ainda pior que o dele, sem sucesso:

– Já falei, porra! Eu vou com os caras!

Quando Pedro, Martin e as meninas já estavam embarcados no Kadett para voltar ao Montanha Russa, Kitz abriu a mala do carro rapidamente e colocou uma mesa de ferro e quadro cadeiras, que ele tinha acabado de furtar da área VIP.

– Toca rápido, Pedrão! Toca rápido! – Avisou o meliante, dando batidas na carroceria.

Pedro pensou em descer e dar cabo naquela porra, mas viu um carro de polícia se aproximando ao longe e se lembrou que estavam com o resto da catumoila de Filho. Muito puto, deu partida no carro e seguiu adiante com o produto do roubo, praguejando.

Completamente extasiados, Kitz e Zoila apenas não queriam deixar aquela noite épica acabar. O início não tinha sido nada promissor, mas o segundo tempo foi sublime. Como Filho tinha voltado a dormir, agora menos desconfortavelmente deitado na areia, resolveram tomar um banho de mar. Pelados. Boiando na água, viram a luz do sol lentamente apagando as estrelas, e tudo parecia mágico naquele momento. Mas aquela não era uma praia deserta. Era o balneário mais famoso da região. Quando atentaram para a areia, um grupo de bombeiros salva-vidas estava gritando e gesticulando na direção deles, enquanto reviravam suas roupas espalhadas. O tom não era nada amistoso:

– Que porra é essa, filhos da puta?!

De piru balançando, Kitz e Zoila saíram da água cabisbaixos, já esperando uma punição humilhante. Mas, entre os curiosos que já acompanhavam a operação de resgate, apareceu a salvação:

– Guilherme?! – Exclamou incrédulo o pai de Zoila, quando reconheceu o filho naquela situação vexatória.

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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