XXI. Motoquinha frio negro
Antes: XX. Matinê Super Bombada!
– E tem mais! Domingo que vem o ingresso vai aumentar de preço! – Estralou o síndico babaca.
Martin viu a loirinha conversando com o segurança que lidava com os destroços da mesa de centro, e temeu que ela pudesse descrevê-los. Então foram ao banheiro e trocaram de camisa, para dificultar qualquer identificação. Talvez não fosse preciso, pois conseguiram sair do clube tranquilamente. Ainda bem que por ali não tinha um outro Filho desavisado, pois agora era ele que usava aquela camisa de forma não autorizada.
Ainda no salão do clube, Mari e Babi aguardavam no camarote do filho do bicheiro, que obviamente não estava nada satisfeito com o que pareceu ser um atentado à bomba na sua área. As duas se entreolharam, pois Mari tinha certeza de que aquilo era obra da gangue do irmão e seus amigos doentes mentais, incluindo seu futuro ex-namorado. Pedro e Cris também pareciam não acreditar na ousadia dos moleques. Na verdade, acreditavam sim. Era a típica coisa que faziam.
Com exceção de Kitz e Filho, que disseram que iam dar uma volta descompromissada no condomínio, já era mais de dez da noite quando subiram à casa. Martin ligou o som do Kadett e meteu novamente o lado da fita que tinha uma seleção de músicas do The Church com outras bandas australianas. Ele, Mari, Pedro e Cris viajavam no som dentro do carro, quando notaram que Zoila e Babi tinham sumido. Enquanto tocava Alone with You, do Sunnyboys, versão original, todo mundo percebeu que eles estavam transando no banheiro de serviço quando a pedra da pia em que estavam apoiados quebrou, fazendo um esporro. Zoila voou dali pelos fundos quando a mãe de Bárbara foi conferir o que tinha acontecido. Ela assumiu toda a culpa, afirmando que tinha subido na pia para alcançar o topo do armário na parede oposta, para alcançar produtos de limpeza. Martin pensou que era uma desculpa muito pouco crível, seja porque Babi nunca limpava nada, ou porque o ato lhe obrigaria a um certo contorcionismo. Mas não deixou de imaginar com satisfação a pose sugestiva daquela potranca se estivesse fazendo mesmo o que disse.
– Arrumou as paradas? – Perguntou Filho.
– Arrumei. – Respondeu Kitz, lhe entregando um saco de pano com correntes e cadeados, que ele tinha acabado de furtar de uma casa em obras.
– E a massinha?
– Arrumei algo melhor. – Disse Kitz, com um pacote de durepóxi pela metade.
– Boa, moleque!
Aguardaram por ali, perto da casa do síndico, até quase meia-noite, quando viram as últimas luzes internas se apagando. Dez minutos de segurança depois, passaram correntes e cadeados no portão grande e na porta principal para pedestres da casa, confeccionadas com grades de ferro, e meteram durepóxi nas fechaduras, tanto dos portões da casa quando nas portas do carro, que estava estacionado na rua.
Quando retornaram, Zoila e Kitz pediram a Martin uma carona para o motel que seu pai tinha lhe indicado. Não era impossível ir a pé, mas agora já estava de madrugada, uma chuva fina caía, vento frio soprando… Quando Mari chamou Filho pra conversar no quarto, já estava mais ou menos claro pra todo mundo o que seria.
Pararam rapidamente no acostamento da estrada para pegar suas mochilas, que ainda se encontravam no interior da bomba. Kitz teve a impressão do carro ter se inclinado um pouco na encosta, mas não deu muita atenção. Tinha muita vegetação ali ainda. Durante o trajeto até o motel, foram ultrapassados, após uma luta não recíproca, por um motoqueiro style descalço, sem camisa e sem capacete, levando na garupa uma gostosa com um biquíni minúsculo, igualmente desprotegida, em múltiplos sentidos. A iluminação da estrada era muito precária. O cara usava um óculos de sol chamativo da Oakley, daqueles de vôlei de praia, o que contrastava dramaticamente com a situação em que se encontrava no momento.
– Motoquinha frio negro. – Soltou Zoila, sintetizando ao máximo o que poderia ser uma complexa opinião sobre a cena.
Quando já estavam chegando ao destino, Zoila, que não era nada chegado a esse tipo de declaração, agradeceu com uma sinceridade que comoveu até Pedro, que não gostava nada dele:
– Porra, galera, valeu mesmo, de coração. Acho que eu nunca tive amigos como vocês.
Cris apenas sorriu para o irmão. Ela achava que era verdade. E quem olhasse para seu olhar tão terno naquele momento também saberia que era mesmo verdade. No motel, Zoila logo descobriu que seu pai já não estava mais lá. A dona do estabelecimento de fato o conhecia, mas dormir lá, só pagando. Foi quando perceberam que, ao lado do estabelecimento, que estava mais para um serviço de suporte à prostituição, passava um rio em sua jornada rumo ao mar. Na outra margem, havia um hotel de aspecto bem melhor, com um restaurante funcionando em plena madrugada. Se voltassem à estrada, onde havia uma ponte, levariam certamente quase uma hora para chegar.
– Bora ir nadando? – Sugeriu Zoila.
– Porra, será que dá?
– Só tentando. – Respondeu Zoila já começando a tirar suas roupas, no que foi seguido por Kitz:
– Então bora tentar.
O plano era simples. O rio estava calmo, fluindo mansamente. Não devia ser muito fundo. Eles colocariam os tênis e roupas que estavam usando junto com as demais na mochila, e atravessariam o curso d’água segurando-a por sobre a cabeça. Parecia simples, mas Martin ou Pedro teriam avisado que estavam na maré cheia, e o centro do rio era bem mais profundo. Como queríamos demonstrar, após algumas patéticas tentativas de nadar cachorrinho com a mochila fora da água, alcançaram a outra margem com tudo, absolutamente tudo, completamente encharcado. Nem um fininho dava pra acender agora, só pra dar aquela tranquilizada.
Mas, como era comum entre os dois, não seria um pequeno imprevisto que lhes retiraria o foco da missão. O que não os matava os fortalecia. Deram uma torcida nas roupas que precisavam antes de vesti-las, calçaram os tênis ensopados e, para horror dos poucos funcionários e clientes que ainda estavam por lá àquela hora, entraram decididamente no restaurante do hotel, que na verdade era uma pizzaria. Quando já estavam instalados com a bunda molhada nas simpáticas cadeiras forradas com tecido, pediram sem qualquer medo das caras feias:
– O senhor teria um cardápio, por gentileza?

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