XXII. Samsara

XXII. Samsara

Antes: XXI. Motoquinha frio negro

Quando estavam voltando para o Montanha Russa, Cris pediu, timidamente:

– Martin, por acaso você teria uma pontinha?

Não fumava um com ela desde que terminaram, em agosto. Por sorte, tinha bem mais que uma ponta: um baseado inteiro aguardando o momento certo, que era aquele.

– Vou acender um pra gente.

Cris estava feliz. Não apenas por conta do irmão, que também parecia feliz, embora sempre rodeado pelo caos. Mas porque estava em um lugar legal, com amigos que confiava, tinha conhecido pessoas novas e todo um futuro até pouco tempo inimaginável se abria à sua perspectiva. Deu um tapa, dois. Muito tempo que não fumava maconha. Engasgou, riu, se soltou. Os dois malandros no carro hipnotizados pelo quanto era linda. Martin obviamente lembrou do dia em que tinha perdido a virgindade com aquela obra especial da natureza, numa viagem para Ubatuba, em meio a um rolo de términos e voltas de Cris e Filho, que era seu namorado na época. Mas a experiência não tinha sido exatamente espetacular. Muita pressão no dia. As coisas só melhoraram no inverno, quando começaram a namorar sério. E Filho voltou para Mari. Uma certa promiscuidade parecia normal no grupo. Quando terminaram, Martin estava certo de que o relacionamento tinha deixado marcas mais doloridas nele do que nela.

Para não ir muito mais longe, nem chegar ao Montanha Russa com o baseado ainda aceso, Martin passou a dar voltas em círculo com o carro numa das rotatórias da estrada, a que dava acesso para a Praia Grande. Do som que rolava no carro, agora a letra que lhe chamava a atenção na compilação do Church era a de When you were mine, abertura do programa Vibração Bodyboard, que ele costumava assistir com Roserite na TV aberta. No outro lado da fita, compreensivelmente, Are you ready to be heartbroken?

Depois de poucas voltas girando em sentido anti-horário, Cris já estava viajando:

– Já pensou se a gente é apenas um personagem de um livro? Estamos aqui, pensando existir, mas na verdade só existimos na cabeça de outra pessoa…

– Como assim, cara? Eu falo, ouço, tenho cara, forma… – Reagiu Pedro, que a essa altura também compartilhava o baseado, o que era raríssimo.

– Personagem de filme então. – Insistiu na linha de raciocínio Cris.

– Eu tenho cheiro! – Replicou Pedro.

– Você entendeu o ponto dela, amigo. – Rebateu Martin: – Ela tá falando de simulação, ou de design inteligente… – Viajou.

– Simulação é viagem. Você sabe disso. Se o design é inteligente é a pergunta de um milhão de dólares. – Concluiu Pedro.

– É mais do que isso, gente… Mesmo que fossemos apenas criações na cabeça de um autor, de alguma forma existimos de verdade naquela dimensão… Somos parte dele. – Aprofundou Cris.

– Somos parte dele. – Repetiu Martin, olhando fixamente para o cenário à frente, que girava e girava: – Somos fragmentos de possibilidades que colapsam no cérebro de alguém ou numa galáxia, dá no mesmo.

– Você estão muito loucos! – Riu-se Pedro, o que contaminou os outros dois.

– Eu espero que o autor goste do meu personagem. – Disse Cris.

Com certeza gostava, Pedro e Martin pensaram ao mesmíssimo tempo.

– Nenhum autor criaria uma cena em que pessoas fumam gongolos vivos, se não tivesse visto acontecer na realidade. – Concluiu Martin, resgatando uma lembrança recente.

Pedro pensou por alguns segundos. O argumento parecia bom, mas no fundo era só mais uma tautologia de maconheiro.

– E daí? O que isso tem a ver com a porra do assunto? Não somos hologramas, criações de alguma entidade cósmica, nada disso. Isso é coisa de roteiro de cinema. Existimos aqui e agora, e é isso que importa, concordam?

Sim, era o que importava. Cris aproveitou a deixa, meio sonhando:

– Se isso aqui fosse um filme, essa era a hora em que eu daria uma olhadinha para a câmera.

Como o baseado já estava no fim, Martin seguiu adiante no retorno, em direção ao Montanha Russa. Foi só aí que perceberam. Durante todo aquele tempo, uma viatura da PM estava parada bem perto dali, num acostamento ao lado da rotatória. E os policiais estavam no carro, que tinha o salão aceso. Martin rapidamente engoliu a ponta, enquanto passavam pela joaninha.

– Ainda bem que são vocês na frente, hein? – Disse Pedro, que era bem moreno: – Se fosse eu ou meu irmão (Fitinha, um pouco mais escuro que ele), tinham parado o carro.

– Meu irmão é da sua cor. – Replicou Cris.

– Mas você é branquinha. E teu irmão é esturricado de praia. Mas se duvidar param ele também. Aqui no Rio a polícia só para os mais pretos. – Disse Pedro com naturalidade.

Martin não duvidava. Na única vez que tinha rodado para a polícia sem habilitação, há dois anos, quem estava ao lado dele no banco do carona? Pedro. Iriam encher o tanque do Kadett para viajar justamente ao Montanha Russa no fim do ano. Grampeados, acabaram perdendo a manhã inteira até que o pai de Martin subornasse os PMs.

Quando chegaram em casa, Cris deu um beijo em cada um e decidiu ir dormir feliz, fechando a noite no ápice.

– Bora ver uma coisa maneira? – Perguntou Filho, que ainda estava acordado àquela hora.

– Deu ruim? – Questionou Martin, ignorando a sugestão.

– Deu. Área agora tá livre de novo pra você, Pedrão… – Brincou Filho, tentando amenizar um sofrimento verdadeiro.

– Esquece, mané. Tô em outra.

Quando já era quase de manhã, Filho os levou até perto da casa do síndico. Sentaram num banco que ficava debaixo de uma árvore, numa pequena praça. De lá, assistiram quando o sujeito tentou sair de manhã e se viu trancado por correntes na área de casa. Logo os seguranças do condomínio estavam por lá, tentando ajudá-lo. Por fim, teve mesmo de pular o muro de casa, o que fez com certa dificuldade.

Quando descobriu que também não poderia entrar no carro, devido ao durepóxi solidificado na fechadura, colapsou. Com o próprio chaveiro, desferiu inúmeros golpes desconjuntados contra o próprio carro, gritando todos os xingamentos que conhecia.

– Esse cara é mesmo um babaca. – Afirmou Pedro.

– Mereceu. – Concordou Martin.

– Tava dando mole ele. Vamos ver se agora ele aprende. – Interpretou Filho, tortuosamente.

“Nem em mil vidas”, pensou Martin. Nem em mil vidas.

Continua…

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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