XXIII. Memento Mori
Depois das pizzas, Kitz e Zoila tiveram de pagar antecipadamente para pernoitar no pior quarto do hotel duas estrelas em que se achavam, a contragosto dos demais hóspedes e da maioria dos poucos funcionários do estabelecimento. A decisão raspou seus recursos reservados para o Revéillon, mas pelo menos teriam direito a um café da manhã decente, o que não viam há tempos. E a outra opção era nadar de volta para dormir no puteiro.
De manhã, chegaram cedo ao restaurante do hotel e passaram vergonha se alimentando em quantidades animalescas do bufê. Comeram literalmente de tudo, muito, como se estivessem preparando uma hibernação de semanas, para horror das testemunhas. Botaram confetes de chocolate e calda morango e caramelo no hambúrguer e na batata frita, só pra não deixar de experimentar nada.
Mas aquele bucólico café haveria de ser interrompido por um acontecimento terrível. No restaurante, todos ouviram claramente o som de acidente, e muitos correram para a estrada para ver o que tinha acontecido. Quando Kitz e Zoila chegaram ao local, o negócio parecia sério, talvez irreversível: quatro pessoas caídas no chão, ao lado de uma moto tombada no meio da estrada e uma bicicleta retorcida, no mato. Zoila logo se ligou: era o casal da motoquinha. E os dois na bicicleta, que eram pretos, deviam ser locais.
A mulher que estava na bicicleta, que tinha caído perto do mato, logo recobrou os sentidos e se levantou sozinha, ainda grogue, sendo amparada pelo pessoal do hotel, e levada ao restaurante. Seu acompanhante não tinha nenhum ferimento aparente, mas estava desacordado, estirado na estrada. O cara da moto apresentava a situação mais tensa, pois era o único que emitia sons: um ruído agonizante de respiração abafada, como es estivesse lutando por cada golpe de ar. A mulher de biquíni estava deitada de barriga pra baixo, completamente imóvel, com uma grande poça de sangue ao redor da cabeça. Kitz presumiu que talvez já tivesse partido.
O pessoal do hotel já tinha chamado uma ambulância, mas quando um caminhão de mudança passou em frente ao local, tendo de parar por conta do acidente, o motorista se ofereceu para levar os feridos até o hospital mais próximo. O motoqueiro agonizante foi o primeiro a ser carregado até o baú do caminhão, onde continuou sua apavorante batalha para respirar. Não estava sangrando por fora, mas sua boca já dava alguns sinais da hemorragia interna. Em seguida, levaram sua acompanhante, que continuava inerte. Mas, quando foram esticar os braços e pernas do neguinho para erguê-lo até o caminhão, ele acordou e gritou com força:
– Aiiii!!!!!
Com certeza devia estar todo quebrado. E aquela operação de remoção tinha sido feita de maneira completamente inadequada, pensou Kitz. Ele não sabia qual era a forma correta de dar os primeiros socorros, mas aquela definitivamente era errada. Se Martin ou Pedro estivessem aqui, certamente saberiam a melhor forma de proceder. Zoila parecia ainda muito impactado pela situação do cara, que literalmente estrebuchava em praça pública. Com um pouco mais de jeito, não muito, finalmente conseguiram colocar o homem da bicleta no improvisado veículo de socorro.
Quando o Caminhão fez a manobra para voltar à estrada, os corpos chacoalharam no piso da caçamba, e o fraturado gritou de novo. Não dava pra deixá-los sozinhos ali. Kitz se adiantou:
– Vai passar na frente do Montanha Russa? A gente vai com eles.
Os dois pegaram rapidamente suas mochilas e subiram na caçamba do caminhão com as três vítimas. Kitz cuidava para que o neguinho não balançasse muito, enquanto Zoila apenas olhava fixamente para o motoqueiro, que bufava cada vez mais fraco. A moça, coitada, continuava vazando sangue pela cabeça. Quando chegaram à entrada do Montanha Russa, ainda a alguns quilômetros do hospital, Kitz e Zoila saltaram do caminhão. De longe, ainda conseguiram ouvir o barulho dos corpos quicando no piso de metal da caçamba baú e alguns gritos:
– Aiiii! Aiii! Aiii!
Deixaram as mochilas novamente no interior da bomba, que claramente já tinha descido um pouco mais na encosta, pressionando o matagal. Os últimos eventos tinham sido muito impactantes para se preocuparem com aquilo naquele momento. Quando já estavam seguindo pela trilha do mato que era sua passagem para o interior do condomínio, Kitz percebeu que Zoila tinha pegado o Oakley do cara da moto, e já o experimentava no rosto:
– Ficou maneiro, leque.
– Ele não vai precisar mais, né… – Disse Zoila, como se Kitz tivesse estranhado o furto do sinistro souvenir, mas ele não tinha. E concluiu sua reflexão:
– E se continuar vivo, seria uma péssima lembrança.
Zoila disse que iria até a Medéia para avisar Roserite sobre o destino da bomba. Desde sábado uqe não tinham notícias dele, e agora sentia-se responsável pelo acidente. O carro não valia nada, mas talvez tivesse algum valor sentimental. Para ele mesmo já havia, inclusive. Kitz disse que tinha outros planos.
Quando Zoila chegou até a casa da Medéia, no entanto, surpreendeu-se com tudo fechado. A sujeira continava lá, é verdade, assim como os váios danos aparentes à casa: janelas quebradas, paredes pichadas, jardim pisoteado. Mas não hava sinal de vida. A porta da frente estava trancada. Um vizinho estranhou a movimentação:
– Conhece a dona da casa?
Zoila quase respondeu a verdade, mas achou melhor não:
– Não. Só tava vendo os estragos. A festa deve ter sido boa.
– Foi o maior barraco ontem. Aí veio a polícia e levou todo mundo.
Zoila sabia exatamente o que era aquela situação. A vagabunda tinha surtado novamente, como era cíclico.
– Sabe pra onde levaram?
– Não faço ideia, mas ainda bem que foram. Isso aqui ia explodir. Estava insuportável.
Zoila pensou um pouco. Não tinha detalhes do que houve, e nem muito o que fazer. Talvez preso o amigo enfim ficasse mais tranquilo. Seguro até. Arrastado no trem descarrilhado de sexo e drogas da Medéia, Roserite não duraria um fim de semana.

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